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domingo, 23 de janeiro de 2011

Som e fúria, cadê?



VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

É só mais um filme mediano sobre as pegadinhas do destino, que andam ditando as regras na atual filmografia européia de Woody Allen. O som e a fúria de Shakespeare citados na abertura não levam a nada, a coisa toda é sobre idiotice mesmo.

Os personagens da vez, junto com outros dos anos 80, estão aporrinhados com suas vidinhas medíocres. Para preencher o assustador vazio existencial, todos cometem loucuras por estranhos sedutores, em busca de felicidade num roteiro carregado de doces metáforas e ausente daquela intelectualidade de boteco tão gostosa.

Aos quarenta minutos de filme, a idealização de um grande amor já rolou barranco abaixo de mãos dadas com o desejo de uma vida cheia de grandes emoções. As qualidades idolatradas viram fumaça quando a rotina toma conta de todos e os pobres mortais batem o carrinho da felicidade no muro da frustração. Quem depositou esperança, terá que se conformar com o que a vida oferece ou fingir que nada aconteceu e embarcar na primeira ilusão que passa, só para seguir em frente.

Nos desacertos do elenco, Naomi Watts e Antonio Banderas ficam em primeiro lugar. Na lanterna, um certo Anthony Hopkins tenta imitar Woody Allen. Quem enche a tela pra valer é Gemma Jones, que encara a realidade sob o prisma de um doce sonho exotérico. 

Rola um romantismo bonito com Josh Brolin e Freida Pinto, o escritor frustrado metido a espertalhão e sua musa delicada. A sensualidade bombástica é o mérito de Lucy Punch, substituindo Nicole Kidman e detentora da honra de ressuscitar a prostituta burra vivida por Mira Sorvino em Poderosa Afrodite pela enésima vez.

Roger Ashton-Griffiths é o galanteador fã de ocultismo e Celia Imrie aparece por alguns minutos, para declarar posteriormente numa entrevista que aceitou a pontinha insignificante só pelo prazer de trabalhar com uma lenda do quilate de Woody Allen.

Pauline Collins inicia uma sucessão de profecias tragicômicas e juntamente com o narrador, manipula o personagem mais instável da história. O título brasileiro quase empata o desenvolvimento, já que todos em cena conhecem estranhos não apenas do sexo masculino.  

Na hora de assistir, vá com calma. Ou você aproveita o humor negro do diretor e tira sarro da desgraça alheia ou fica entristecido com todos os personagens vitimados por suas próprias esperanças. 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Adoráveis Intrusos



VIOLÊNCIA E PAIXÃO


Pra começo de conversa, esqueça o título nacional. Gruppo Di Famiglia In um Interno é o nome da obra e traduzindo do italiano seria algo como a família em um cômodo.

A família vista no filme não possui laços sanguíneos. Ela é formada acidentalmente, de maneira invasora.

Burt Lancaster, numa atuação solene e cheia de sensibilidade, é um professor aristocrático, um intelectual ermitão isolado num prédio antigo. Sua vida se resume as intensas paixões vazias por obras de arte, livros e o silêncio.

Um belo dia, a desconhecida Bianca Brumontti vem bater a sua porta querendo alugar o apartamento em cima do seu, como presente para a filha que irá se casar com um jovem rapaz. O professor não quer ser incomodado, deixa bem claro que não tolera outras pessoas ao seu redor, principalmente pessoas tão intragáveis quanto a corte de Bianca Brumontti, formada pela filha, o noivo da moça e o displicente Konrad, gigolô da madame. Mas eles são intoleráveis e insistentes, chatos pra falar a verdade, e a contragosto o professor aceitará os seus novos inquilinos.

Em seu penúltimo filme como diretor, Lucchino Visconti ainda demonstra uma pequena preocupação com o fim da aristocracia da qual ele fazia parte, um mundo de cerimoniais tradicionalistas ruindo com os badalos dos anos 70, onde já não havia mais espaço para as frescuras de intelectuais ranzinzas.

A preocupação maior de Visconti em cena é com a morte e a solidão. O personagem de Burt Lancaster, constantemente assombrado por lembranças de uma vida sem graça e solitária, aceita aquela gente estranha com muita relutância e um afeto parcimonioso e sincero. Ele começa a pesar toda a sua existência e questiona-se constantemente a respeito de emoções que não viveu assim como teme a solidão diante da morte que pode estar próxima. É o momento de decisão da vida do professor, a hora de rever alguns conceitos.

O contraste grosseiro entre a turma de noveau riche do andar superior com a classe quatrocentona do professor é o que move as engrenagens da história. O professor se afeiçoa cada vez mais com aquelas irreverentes figuras, ao ponto de ser visto pelos jovens como um pai. É a chegada, num esporro, de uma família que ele não teve e da qual ele vira conselheiro, expectador e conforto para cada um dos parentes arranjados. Os velhos valores e a rigidez do professor são cada vez mais atropelados pela inquietude dos jovens vizinhos envolvidos em intrigas políticas e bacanais românticos. Os conflitos entre aquelas pessoas são intensos demais para a vida tranqüila e hermética do professor e tudo lhe causa surpresa, fazendo com que ele vire também um administrador da inconseqüência daquela gente que ele considera tão enfadonha, mas não quer jamais que lhe saiam de perto.

A política é tocada de leve na figura do personagem Konrad, vivido por Helmut Berger. Os conflitos entre fascistas e comunistas e a onda de terrorismo político que começava a assolar a Europa, farão parte de uma vida tão sem sal como a do professor.

Há quem diga que a relação entre Konrad e o professor, é um reflexo autobiográfico do verdadeiro romance entre Helmut Berger e Lucchino Visconti, homossexuais assumidos e apaixonados fora das telas. Se existe amor entre os dois, não fica claro e jamais é vulgarizado. O que transparece entre eles é a admiração respeitosa de Konrad pela classe e inteligência do professor, assim como o professor admira Konrad pelo seu heroísmo misterioso e suas inclinações políticas reacionárias.

Esse é o universo dessa família improvisada que mexe com a paz de um velho professor. Ele, tão apaixonado por quadros no estilo conversation pieces, pinturas que mostram famílias em momentos de intimidade, terá direito aos seus momentos familiares mesmo que aos trancos e barrancos.

Junto com Burt Lancaster e Helmut Berger, Silvana Mangano enche de fúria cada minuto onde aparece como Bianca Brumontti. Ela é a contradição ambulante. Muito bem vestida por Piero Tosi, Silvana aparenta ser uma dama de alta classe, mas é uma criatura neurótica e ciumenta que vende uma imagem não condizente com seus modos um tanto desprezíveis. Silvana faria aqui a sua última aparição em filmes antes da morte do filho Federicco, uma dor irreparável que a manteve afastada das telas por 10 anos.

A encantadora Claudia Marsani é Lietta, a doce e carinhosa filha de Bianca que conquista o professor com sua meiguice. Stefano Patrizzi é o noivo insosso e recalcado. Em flashbacks, podemos vislumbrar as belezas inexoráveis de Dominique Sanda como a mãe e Claudia Cardinale como a esposa do professor.

O roteiro intenso de Enrico Medioli e Suso Cecchi D’Amico foi criado como uma peça de teatro, especialmente para que Visconti com a saúde debilitada e preso a uma cadeira de rodas, pudesse dirigir com muita calma dentro de suas limitações.

Talvez seja por isso que o final de muitas coisas, principalmente da vida, fale mais alto por aqui.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Meus amigos, George e Martha



QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

Raro espetáculo do cinema, não é um filme, é um milagre. Deveria ser estudado por qualquer ator iniciante a fim de descobrir o significado verdadeiro das atuações.

Não se consegue escapar da magia que emana da tela causada pelo elenco e pelo texto cortante de Edward Albee, um grande dramaturgo.

A cena em que Elizabeth Taylor come uma coxinha de frango na abertura enquanto discursa sobre um filme de Bette Davis, já virou tema de comunidade no orkut.

Por falar em Taylor, ela e seu marido Richard Burton poucas vezes ousaram trabalhar da forma como aparecem em cena. Eles enchem a cara e brigam por todo o filme, repetindo na tela o que gostavam de fazer na vida real, já que o caso intenso de amor e ódio dos dois é tão conhecido quanto o poder desse filme.

É a primeira direção de Mike Nichols no cinema, que nasceu de quina pra lua, pois começou a carreira em grande estilo, amparado por um quarteto magnífico de atores e a adaptação do texto de Albee feita por Ernest Lehman, um poderoso roteirista de grandes sucessos como Amor Sublime Amor, Intriga Internacional, A Embriaguez do Sucesso e A Noviça Rebelde.

É preciso paciência e nervos de aço para acompanhar o embate na tela, o apocalipse liderado por George e Martha, um casal decrépito e alcoolizado. Sua maior diversão é atacar um ao outro verbalmente, provocar-se mutuamente até os estertores para ver quem será o primeiro a cair. Raramente um derruba o outro, ambos caem juntos e apaixonados. George é um simples professor universitário fatigado e casado com a fútil e brejeira filha do dono da universidade, a escandalosa Martha. Não se sabe há quantos anos eles estão nessa loucura toda, mas uma coisa é certa, eles adoram isso.

Numa das incontáveis farras organizadas pelo pai de Martha entre os funcionários da faculdade, o grosseiro casal fica incumbido de fazer o lado social com Nick, interpretado por um George Segal ainda garotão, o professor recém-chegado.

É a escolha errada de anfitriões. Mas a noite parece não ter fim, e quando um jovem loiro e atlético professor adentrar na casa de George e Martha com sua esposa sem quadris, está armada a confusão. O casalzinho desajeitado são as vítimas perfeitas para o jogo de destruição.

É impossível não se apaixonar pelo clima de fim de festa, cheio de amargor, instaurado pela sublime intensidade do elenco. Toda aquela dor de George e Martha, o medo do jovem professor que sente estar pisando num território perigoso e os pileques memoráveis. Estão todos entediados, parecem gostar de trocar ofensas e cometer aqueles despautérios numa única noite. As esposas parecem aporrinhar os maridos e nem todo mundo fala a mesma linguagem. George e Martha escondem uma dor particular, talvez a promessa de um amor que não foi cumprido, feito de bondade e rancor, a realidade de dois corações cansados que necessitam um do outro para sobreviver.

A violência verbal é cheia de sinceridade e sarcasmo. A vontade de despir-se dos velhos conceitos e disfarces é nítida em George e Martha, que poderiam ser um casal modelo de cultura e refinamento, mas insistem em deixar a civilidade de lado para ensinar uma lição ao jovem casalzinho. Em uma determinada cena, George, completamente aporrinhado e de porre, diz para Nick: “Martha tem 108...anos. Pesa muito mais do que isso.” É o sarcasmo que transita entre a sanidade e a loucura, George e Martha por pouco não arrebentam um a cara do outro. Por pouco.

Todos no elenco e na equipe técnica, sem exceções, dos atores ao diretor de fotografia, foram indicados ao Oscar. Na brincadeira, o filme levou cinco estatuetas. Elizabeth Taylor ganhou o seu segundo Oscar e mais uma cacetada de prêmios de melhor atriz de várias associações de críticos cinematográficos e com razão.

Martha é o seu canto do cisne, a verdadeira megera indomável, uma vilã histórica fomentada com ódio e piedade. Famosa por sua sensualidade, Liz não hesitou em ficar 30 quilos acima do seu peso para dar vida a corpulenta e azucrinante Martha. Sandy Dennis é a esposa caipira do professor galã, premiada como Atriz Coadjuvante já no seu terceiro trabalho no cinema. Os outros prêmios foram para Richard Sylbert pelo cenário, Irene Sharaff pelos figurinos e Haskell Wexler pela fotografia.

Reza a lenda que a peça de Edward Albee foi inspirada no casamento dos boêmios intelectuais Willard Maas e Marie Menken. Willard era professor universitário de literatura e diretor de filmes experimentais underground. Por sinal, era muito amigo de Andy Warhol. Casado com Marie, também diretora de documentários, os dois viveram um casamento tumultuado por conta do ciúme de Willard e da popularidade de Marie. Farristas incansáveis, eram conhecidos por festas eternas e brigas homéricas regadas a altas doses de cana e alguns tapas em drogas.

domingo, 28 de novembro de 2010

Piada sem graça



Leslie Nielsen morreu na madrugada de domingo e a semana começa sem graça. Quase todas as semanas começam sem graça, mas o cinéfilo é paga pau da sétima arte e quando morre um astro, ficamos cheio de dor.   

Coincidências a parte, na tarde de sábado revisitei Creephshow, rara ocasião em que Nielsen faz papel de vilão e mata Ted Danson na praia com o movimento da maré.

Morreu o ator que os nossos pais e avós nem sempre lembravam o nome e nos almoços de família costumavam chamá-lo de o velho da cabeça branca que fazia aqueles filmes engraçados. Já vi gente confundir o Leslie Nielsen com o Steve Martin.

Nem todo mundo sabe quem é Leslie Nielsen, mas todo mundo conhece Frank Drebin, o policial deliciosamente estúpido que detonava a recepção da rainha Elizabeth, passava uma lixa na bunda de um cadeirante e num grand finale de trilogia, arrebentava aos pontapés a noite do Oscar apenas para manter a paz nos EUA.

Nielsen garantiu muitas risadas e marcou piadas no coração de todos como o Drácula de Mel Brooks, o médico de Apertem Os Cintos, o Piloto Sumiu!, o agente Dick Steel, o Mr. Magoo e o padre Euposso. 

Nem só de risadas a carreira do homem foi construída e ele enfrentou alienígenas na ficção cult Planeta Proibido, não impediu o triste Destino do Poseidon e foi assassinado por Barbra Streissand em Querem Me Enlouquecer.    

A cara mista de idiotice e benevolência de Lesie Nielsen está na galeria nostálgica da Sessão da Tarde onde guardamos os peitos de Elvira, Ferris matando aula, as bruxas inglesas chefiadas por Anjelica Huston, Indiana Jones, o DeLorean cruzando o tempo, E.T. e a bicicleta, Sr. Miyagi, Slot e o Tom Hanks quando era engraçado.

Se bem que o Hanks continua engraçado sempre que disfarça prisão de ventre com seriedade. O humor no cinema anda caindo pelas tabelas, mesmo com os esforços de Steven Seagal, Julia Roberts, Sandra Bullock e Robert Pattinson.  

Voltando aos comediantes assumidos, tomara que as gerações futuras desfrutem de um próximo Leslie Nielsen saído desse balaio incansável de novidades instantâneas. Nielsen não nasceu comediante, tornou-se nos anos 80, num seriado de televisão que deu origem aos filmes da série Corra Que a Polícia Vem Aí

Lá todo dia tem astro, todo pelego ganha Oscar e comediantes então, explodem aos borbotões. Quem sabe um deles não garanta risadas quando embranquecer os cabelos, usando da sutileza de Nielsen, imortalizado antes mesmo de morrer pelo crítico certeiro Roger Ebert, com o honroso codinome de Laurence Olivier das piadas.  

domingo, 7 de novembro de 2010

Woody, eu estava morrendo de saudades



Assistir Tudo Pode Dar Certo é encontrar um velho amigo, descansar a cabeça no ombro conhecido. Quando Woody Allen não está na Europa desmembrando seus filmes antigos com um elenco alheio ao seu universo, volta para NY só pra bater aquelazinha. Curioso é perceber como sua maldade atual é disparada em tiros com o maior calibre possível.

Filme feito com dinheiro europeu e rodado na velha NY, onde Woody bancando a dama ressentida em entrevistas, prometeu jamais retornar porque os americanos não financiavam e nem entendiam mais os seus filmes. 171 puro, afinal Woody não é idiota. Para quem é fã da fase nova-iorquina, o filme é um presente. Sentida é a ausência de Woody como o neurótico supremo.

Larry David é um excelente ator, mas destoa e exagera em caricaturar Allen. Se ele resolve aparecer, defenderia com brilhantismo e sutileza o extremo nervosismo do tipo que aprendemos a amar. Ele deveria dar a cara a tapa e botar o alvo no peito, pra deixar a coisa toda mais gostosa.

Você já conhece o caminho. Filosofia, existencialismo, mau humor, judaísmo, sexo, vida, amor e morte. Só faltou o outono. A originalidade espoca na crueldade latente para subestimar os faroleiros que assistem os seus filmes. É uma sacada tremenda, pura esperteza. 

É a história do neurótico pé no saco metido a sabichão que conhece uma garota gostosa e burra e de repente, o texto torna-se uma delícia enquanto revisitamos cada movimento e palavra. Pedras são atiradas em tipos étnicos e piadas cruéis e funcionais sobre arte e intelectualidade são contadas. A voz de Allen calando seus críticos, dizendo que é isso que sabe fazer, então é melhor chupar o dedo ou engolir seus filmes, c'est fini.

Pecado mortal é dizer que o filme é clichê sem saber que se trata de uma idéia adormecida. Seu roteiro nasceu nos anos 70, quando Allen tinha o desejo de colocar Zero Mostel como protagonista. Em 77, Mostel bateu as botas e o texto ficou de lado. Ressurgiu tardiamente e passou meio batido, porque conhecemos esse universo de trás pra frente. 

No elenco, enquanto musa passageira Evan Rachel Wood é a vítima que se apaixona pelo carrasco enchendo a tela de tesão. Mais tarde, será a criatura voltada contra o criador, e a menina faz bonito, não deixa a peteca cair.    

Patricia Clarkson também foi convidada para viver outra metamorfose, afinal o filme é feito disso. Numa explosão cômica, ela deixa de ser Blanche DuBois e vira Diane Arbus, surpreendendo Ed Begley Jr. como o ex-marido pateta e caipira, que abandona o verniz de macho alfa para tornar-se homossexual.

Michael McKean, Lyle Kanouse e Adam Brooks são os amigos com uma paciência bíblica para aturar o neurastênico intelectual. Henry Cavill é o sexual Randy e Jessica Hecht é a mediúnica Helena.

Quase ninguém parou pra notar que o filme não é sobre intelectualidade. Parece mais uma fábula com final bonitinho, como aqueles filmes antigos de Eric Rohmer.

Whatever Works, ao pé da letra, significa que tudo é válido, qualquer coisa que vier é lucro na hora de repaginar uma vida sem graça.  E para um autor em estado de graça, tudo é válido na hora de fazer cinema, até mesmo pregar uma moral bem amoral só para divertir.

sábado, 30 de outubro de 2010

Reencontros e homenagens

Um Misterioso Assassinato em Manhattan

Depois de explicitar suas intenções sobre o fim do casamento com Mia Farrow em Maridos e Esposas, Woody correu atras do prejuízo moral e foi de reencontro ao seu grande amor do passado, Diane Keaton para este filme. Chamou até Marshall Brickman, outro velho amigo de dias melhores, para roteirizar a peça.

O neurótico e a nervosa, agora casados e vinte anos depois, continuam imbatíveis nas mediações de Nova York. Não é A Última Noite de Boris Grushenko e nem O Dorminhoco, mas o pas de deux humorístico entre Woody e Diane funciona muito bem. Diane é a mulher presa ao cotidiano que acredita ter acontecido um assassinato em seu prédio. Com a adrenalina saindo pelas orelhas, ela envolve o marido medroso e inseguro, personagem tradicional de Woody que meio mundo acredita ser igual fora das telas, numa trama mirabolante onde os dois provocam risos e soltam risadas descaradamente um para o outro.  

No picadeiro armado de palhaçadas e lembranças, o texto afirma que existe (ou existiu) vida inteligente no cinema comercial, com piadas sutis e malabarismos que cortejam a criatividade de um autor. Ele tentou dizer que não seria mais um cineasta pretensioso. Mentira pura.

Existe densidade nos personagens deste filme, mas nenhum deles toca aquela punheta intelectual filosófica retomada em filmes seguintes e tão adorada pela massa cult que não aguentaria um dia sequer em Nova York e vai ao terapeuta só pra fazer farol. 

A única coisa que os cults quase não percebem enquanto procuram a luz no subtexto de seus filmes (coisa que eu também faço de vez em quando) é a capacidade ambígua de Woody em tirar graça ou construir tragédias profundas em cima das banalidades cotidianas,  homenageando boas idéias em toda a sua filmografia. Se você nunca viu Bergman, Fellini, Resnais ou até mesmo um filme expressionista alemão, jamais reconhecerá as fórmulas de Woody, lamento. 

Homenagem por homenagem, este aqui está cheio delas. Hitchcock, Billy Wilder, Roman Polanski e Orson Welles foram alinhavados para criar uma nova fórmula bem delineada e cheia de reviravoltas, sempre na contramão da comédia, para excitar cada vez mais o espectador.

E isso não é a minha balela costumeira sobre clichês. Falta de originalidade é uma coisa. Homenagens para o olho treinado na sétima arte, são outros quinhentos. O olho treinado consegue manter o sorriso malicioso num filme de Tarantino, o cult de boutique não.

Alan Alda é o pé-de-pano louco para dar uns pegas em Diane. Seu oposto feminino é Anjelica Huston, a escritora louca para dar uns pegas em Woody. No fim, Woody e Diane eternamente apaixonados, não se deixam pegar por ninguém. Alan e Anjelica até se pegam, mas ele foge do desafio, alegando não ser jovem o suficiente para aguentar Anjelica em toda sua força e tamanho.

Ron Rifkin e Joy Behar são o casal de amigos, enfeites de cena. Jerry Adler é o suspeito, Lynn Cohen é a defunta que insiste em continuar viva e Melanie Norris é a loira fatal. Com uma vilania contida, Marge Redmond é a cúmplice descartada.

Bobby Short canta lindamente na abertura, enquanto Nova York aparece em plenitude e estado de graça, assim como o diretor deste filme.  

sábado, 2 de outubro de 2010

Meu primeiro Altman



Se você me conhece profundamente deve saber que eu curto Robert Altman e um dos meus filmes favoritos é Pret-à-PorterEu também adoro Quando os Homens São HomensShort Cuts, Nashville, Assassinato em Gosford Park, Cerimônia De Casamento, A Última Noite e confesso que M*A*S*H não mexe comigo.

Pret-à-Porter foi o meu primeiro Altman, e ajudou a despertar esse tesão incontrolável pela sétima arte, e daí pra frente (ou pra trás e pros lados), descobrir o cinema desse autor americano, é um prazer inenarrável. A turma que viu Short Cuts porquê comprou aquele livro dos 1001 Filmes Para Ver Antes De Morrer, não sabe da missa a metade.

Filme do Altman tem que ter MUITA gente andando pra lá e pra cá, a câmera nem um pouco preocupada. A preocupação é cruzar vidas de forma voyeurística e mesclar histórias. Brincar com a cronologia, criar suspense, eriçar a curiosidade, emocionar, divertir e liberar a imaginação sobre o quê aconteceu com quem.

Isso é Altman. Crítica social e humor negro fazem parte do pacote. É só masturbar os 90% restante do cérebro, que você percebe. Coragem. Não dói nada.

O roteiro do diretor em dobradinha com Barbara Shulgasser, tira a maior onda com a futilidade do mundo fashion e causou comoção com estilistas e modelos na época do lançamento. Toda esse gente sentiu-se ridicularizada com o filme.

Azar o deles, o espírito é esse. O cenário é Paris e o filme foi injustiçado e incompreendido, tal qual Blade Runner e Cidadão Kane. Quem sabe daqui trinta anos, ele vira um clássico indispensável.

O elenco é uma guerra. Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Jean-Pierre Cassel, Kim Bassinger, Lauren Bacall, Stephen Rea, Teri Garr, Tracey Ullmann, Sally Kellerman, Linda Hunt, Richard E. Grant, Forrest Whitaker, Rupert Everett, Tim Robbins, Danny Aiello, mais umas duas mil pessoas e a mãe do Badanha amarrada num piano.

Altman homenageia Ontem, Hoje e Amanhã, alguns mistérios risíveis surgem pelo filme, em meio a porres homéricos. A atenção é disputada. Grace Jones canta La Vie En Rose no final. A trilha sonora é cortesia de Michel Legrand. Pra quem curte anorexia, tem um monte de mulher gostosa. Um assassinato aconteceu ou não.

O final desfere um tapa tremendo na falta de criatividade. Nesse meio tempo, alguns personagens podem parecer inúteis em cena, mas são tão engraçadinhos. Como certas pessoas na vida da gente, sabe?

E se você gosta de moda, precisa assistir. São os anos 90 e figuraças como Christian Lacroix, Issey Miyake, Jean-Paul Gaultier, Claude Montana, Thiery Mugler, Sonia Rykiel e Nicola Trussardi aparecem em cena, participando da brincadeira.

A vida alheia está em cena para você acompanhar.
Então, corre e assiste. Caso não goste, pode vomitar lá fora.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Suecando



Liv, sabe que dia é hoje?
É aniversário do Ingmar Bergman, que já desencarnou, mas deixou ao cinema um legado esperto de filmes suecos com pessoas suecas e expressões faciais suecas.
Por isso, piadas sobre filmes suecos.

E esse post é bem sueco, bem away pra você.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Fatias De Vida

“Até os meus piores filmes rendem dinheiro e viram clássicos um ano após o lançamento.”

13 de Agosto de 1899, nascia o homem que iria impressionar multidões por longos anos.


Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, criador de tramas mirabolantes, cenas inesquecíveis, heróis equivocados e vilões diabólicos.

Sou fã confesso de toda a sua filmografia, até da fase inicial, onde ele era um errôneo diretor de comédias românticas. Me espantei nas madrugadas da vida com Psicose, gravei Os Pássaros em VHS e assistia incansavelmente, hoje já o tenho em DVD.


Perdi a hora da aula e levei esporro da mãe no dia em que passaram Frenesi, mas o assisti com a cumplicidade dos meus avós, claro. Não perdia no canal USA as reprises do seriado Alfred Hitchcock Apresenta, enquanto a madrinha Zélia fazia crochê no sofá ao lado.
Com muito orgulho, no primeiro ano do segundo grau (ainda se fala assim?), apresentei um trabalho numa aula de inglês sobre o homem.

Alfred e eu temos coisas em comum: gostamos de sustos e pavor, mas somos medrosos de marca maior e caímos sempre de amor por loiras gélidas.

Quando começou no cinemão comercial, em 39, David Selznick achava que ele era o cara certo para dirigir Titanic. Brigou tanto com o chefão que conseguiu dirigir Rebeca, A Mulher Inesquecível (Ou Recível - A Mulher Inesquebeca, para alegria da Juliana Dacoregio).

Tinha medo de policiais e de ovos. Teve cinco indicações ao Oscar, sem jamais faturar algum, exceto aquele desgraçado prêmio pelo “Conjunto Da Obra”, conferido aos futuros defuntos. Conseguiu respeito nos EUA quando os europeus disseram que seus filmes eram obras incontestáveis da humanidade.

Dirigiu os maiores astros de todos os tempos: Tallulah Bankhead, Laurence Olivier, Ethel Barrymore, Marlene Dietrich, Charles Laughton, Joan Fontaine, Judith Anderson e Janet Leigh. Nos fez acreditar que James Stewart e Cary Grant eram os homens imaculados. Lançou Anthony Perkins, Barbara Harris, Shirley MacLaine, Karen Black e Jon Finch ao estrelato. Brigou com Doris Day e certamente amou tanto Grace Kelly, que jamais se perdoou ao rodar Ladrão De Casaca em Mônaco.

A imprensa quis saber o motivo dos seus filmes obterem tanto sucesso: “Todo mundo gosta de levar susto.”
Em outra ocasião, não se acanhou em dizer:
“Para mim, Psicose é uma grande comédia!”

Quando a Fox não conseguia dar um jeito em Cleopatra, pensaram em chamá-lo para endireitar o filme. Não, obrigado. Foi proibido por papai Walt Disney de rodar umas cenas na Disneilândia, só porque dirigiu Psicose.

Ao saber que Hitchock gostaria de ter comprado os direitos autorais de Les Diaboliques, os escritores Pierre Boileau e Thomas Narcejac o presentearam com um conto chamado Dentre Les Morts, que virou o cult Um Corpo Que Cai.

Detestava Brian De Palma e temia o sucesso de Dario Argento, seus melhores imitadores. Era amigo de Truffaut e disse que Buñuel era o grande diretor do mundo. Presenteou Mel Brooks quando este brincou com sua filmografia em Alta Ansiedade.

Não faz muito tempo que sua filha Paticia declarou numa entrevista que dois filmes divertiam o seu pai: a comédia Agarra-Me Se Puderes e Benji, aquele do cachorrinho.

Spielberg, Scorsese, Raimi, Carpenter, Tarantino e qualquer outro metido a fazer suspense cheio de clima, devem lhe pagar tributo.

Na lista dos 100 Grandes Filmes da Humanidade, o homem aparece quatro vezes. Dezoito constam naquele livrinho batuta, 1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER.

Na maior da inocência, acreditava apenas praticar uma arte e sem saber que ao aprofundá-la, produziu leis e criou regras que constituem o abecedário cinematográfico, virando até adjetivo: “É um suspense tão hitchcockiano!”, diz a turma hoje em dia, alguns sem saber a essência da coisa.

No fim da vida, Hitch com a saúde complicada, teve que usar um marcapasso. Sempre que recebia uma visita, fazia questão de mostrar o aparato com orgulho e dizia com a voz pausada fixando os olhos no interlocutor, que a engenhoca deveria fucionar por dez anos, mas poderia parar a qualquer minuto.


É ou não é o pai do suspense?