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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Porradas e Famílias



O Vencedor é um filme com lutas de boxe e por isso não consegue evitar os clichês que regem esse estilo de filme, tão favorito e querido mundo afora. Tudo o que já aprendemos em Rocky e Touro Indomável, surge porque é preciso surgir, não tem outro jeito. No final, entre risos e lágrimas, a mensagem que ecoa é mais velha que a Hebe: persevere, não desista, siga em frente, apanhando e cantando, vença a luta garoto!

Mas, esqueça um pouco o boxe e a mesmice. Ao assistir o filme, preste atenção na rivalidade e camaradagem entre dois irmãos e nas complicadas relações familiares envolvendo duas mulheres, uma realmente apaixonada querendo o melhor para o homem amado e a outra totalmente sem noção, capaz de sufocar aqueles que ama.

É aí que o filme acorda, quando abandona as lutas do ringue e concentra-se nas lutas entre sonhos e desejos. Em ritmo sincopado, a coisa ganha vida e pega fogo, tornando-se atraente e dolorido, emocionante, pra variar.

O protagonista Micky é vivido por Mark Wahlberg, vencendo suas limitações dramáticas ao criar um paradoxo interessante: o homem que ganha dinheiro de uma forma violenta e extremamente passivo em suas atitudes. Silencioso, Wahlberg tenta encontrar limites entre profissão, amor e família, sem trair aos que ama ou a si mesmo.

Família e amor, a força do filme em três atuações hipnotizantes indicadas ao Oscar de coadjuvante desse ano, rivalizando entre socos e atenções, feito uma luta de boxe, com cada ator em seu canto medindo forças.

Melissa Leo, juntamente com Barbara Hershey em Cisne Negro, vem abrilhantar a galeria de mães-monstro do cinema. Fumando feito um dragão e amparada pelas sete filhas estranhas, a mãe empresária crente de que os filhos devem lhe pagar tributo pelo amor pegajoso, não mede esforços e tirania para faturar uns trocados e proteger todos ao seu redor, infernizando em nome do amor maternal.

Amy Adams, esbanjando uma sensualidade até então desconhecida, é Charlene, a garantia do protagonista rumo à liberdade. Garota de faculdade e incompreendida por conta do estilo MTV de vida, que você entenderá a piada apenas ao assistir, ela é a oponente ferrenha da família e acredita que Micky merece coisa bem melhor para o seu futuro.

A façanha maior é do malandro Christian Bale. Repetindo a magreza quase cadavérica de O Operário e acrescentando tiques horrendos de viciado em crack, mordendo a própria testa e a orelha dos outros ao seu redor, Bale grita aos quatro ventos que tem bala na agulha para qualquer mudança física e psicológica que um personagem é capaz de exigir. Ele é Dicky, o filho pródigo e também o favorito, irmão, ídolo e ex-campeão com a certeza de que a glória continua batendo a sua porta.

Batman, John Connor, prisioneiro de guerra do Laos, psicopata americano, Bale é um excelente camaleão do cinema atual. Suas entradas em cena balançam a roseira e cativam com o humor grotesco, os olhos arregalados e o frenesi que denunciam um sério dano neurológico. Na cena final, com Wahlberg num sofá, Bale nem parece Bale, tamanha a mudança.

Christian Bale e Melissa Leo já faturaram o Globo De Ouro e O Vencedor pode virar a grande surpresa da noite do Oscar, se a cerimônia correr em tom de reparação e lembrarmos que Melissa já foi preterida pela Academia De Artes Cinematográficas no soberbo e enervante Rio Congelado

Extrair luz desses personagens medíocres e envolventes, confiando a eles o peso do filme, é o grande mérito do diretor David O. Russell, também indicado ao Oscar, capaz de desviar suas câmeras por um bom tempo do interesse principal, o boxe, para essas criaturas esperançosas de sossego.

Passado nos anos 90, recuperando a época em que a verdadeira história ocorre, do jeito que a massa e a Academia Cinematográfica gostam. O Vencedor passou por uma grande dança de diretores e intérpretes, começando com Martin Scorsese no comando, Brad Pitt e Matt Damon como os dois irmãos, Emily Blunt como Charlene e Lily Tomlin no papel da mãe. Darren Aronofsky também esteve na mira e permaneceu no projeto apenas como produtor.

A veracidade é comprovada pelo apoio da família Ward Eklund, colaboradores do filme e as presenças em cena de Richard Farrell, o documentarista da HBO, o lutador Sugar Ray Leonard e o simpático sparring O’Keefe, personagens da história fora das telas de glória e danação dos irmãos, vistos em plenitude de amor nos créditos finais.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mais aqui do que além

ALÉM DA VIDA

Aos 80 anos de idade, o velho coiote Clint Eastwood não precisa provar mais nada para ninguém, montado no reconhecimento daqueles que o encaravam apenas como o cowboy durão ou o policial brucutu dos anos 70. Andei lendo algumas besteiras por aí dizendo que apenas nesse filme ele exercita o seu lado dramático. Parece que essa gente nunca assistiu As Pontes De Madison ou Menina De Ouro. De bronco, ele só tem a cara e o background de ex-pistoleiro. Enquanto diretor, Clint sabe lidar muito bem com emoções.    

Seu novo filme é uma história de possibilidades de vida diante de experiências próximas da morte, garantido pela sublime beleza plástica, resultado da habilidade de um excelente realizador, capaz de juntar a fotografia hipnotizante de Tom Stern aos acordes líricos da trilha sonora de sua autoria para aconchegar o roteiro delicado e eficiente de Peter Morgan, mais conhecido por excelentes dramas históricos como O Último Rei Da Escócia, Frost/Nixon e A Rainha.

Morgan, apesar do ceticismo declarado em entrevistas durante a produção do filme, lida com a espiritualidade de maneira contemplativa, questionando o limiar entre vida e morte no desenvolvimento quase onírico do filme em trama fragmentada cheia de coincidências que devem acontecer para impulsionar o interesse nas três visões distintas de pessoas normais, confusas entre a presença da morte e a paixão pela vida. Antes de descobrirem o que os espera no além, os protagonistas tentam enxergar o mundo terreno de outra forma, lutando para fugir da dor e do esquecimento.

O elenco abraça a causa com louvor, contribuindo para o clima lírico e emocionante. Matt Damon consegue superar as atuações de cara dura e cria um personagem atormentado por um dom que mais parece maldição. Cécile De France é a jornalista diante de uma nova realidade ignorada pelo mundo, após sobreviver a um impressionante tsunami na abertura do filme, de fazer inveja a Michael Bay e provando que Clint também sabe lidar com pirotecnia.

Os pequenos britânicos Frankie McLaren e George McLaren revezam-se nas atuações dos gêmeos Marcus e Jason, com as atenções voltadas para Marcus, vítima do luto incessante e da saudade. E sempre que as câmeras do filme passeiam pela Inglaterra, confesso que meu coração vibra de maneira delirante. Também andei pela estação de Charing Cross, onde uma emocionante surpresa aguarda o pequeno Marcus.

No apoio, resta a beleza de Bryce Dallas Howard em  momentos envolventes de romantismo cotidiano, a ganância deslumbrada de Jay Mohr, a participação do grande Derek Jacobi como ele mesmo e uma pontinha de Marthe Keller, musa suíça dos anos 70 vista em obras-primas como Maratona Da Morte, Domingo Negro e Fedora.

Terminado o filme, fica a certeza de que Eastwood, dialogando com a morte está mais preocupado com os vivos. Quando ele direciona suas lentes para um tema tão unânime em sua filmografia, deixando o drama surgir de maneira pacífica, Clint proporciona aos sobreviventes uma certa ânsia amorosa de procurar nessa vida as soluções para os mistérios do além da vida, intrigando os céticos, agradando quem curte as idéias espiritualistas e emocionando meio mundo de leigos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Todo Amor


IO SONO L'AMORE ou I AM LOVE

Em I Am Love, a performance central de Tilda Swinton é a alma do filme. Com muito mais fúria do que resignação, ela é a mulher com a identidade em conflito, que abdicou de sua origem russa para agir e pensar como matrona italiana com o simples propósito de agradar a família que nem sempre a considerou pertencente deste universo sustentado na fragilidade das aparências.  

Aos poucos, ela racha o mundinho de porcelana em que levita com elegância, quando percebe que desmanchou-se em dedicação e carinho pela família Recchi cuja falsidade elitista não retribuiu todo o amor dedicado.

Emma, sua personagem feita de amor, espera sentimentos arrebatadores, é uma outsider desse universo quadrissecular e lembrando Michelle Pfeiffer em A Época da Inocência, luta para não padecer diante dos códigos de rigor da nobreza.

O arrebatamento tão esperado, é gradativo e silencioso, quando Emma tenta fugir do padrão milenar de salamaleques impostos pela família. Junto com os filhos e entediada de tanto glamour, ela acorda e dá uns tapas na cara dos milionários cheios de manias, confrontados com toda a sorte de verdades e esqueletos saídos do armário.

Para a visão superficialista, o filme pode até parecer um melodrama tolo sobre os terríveis resultados de paixões impossíveis. Mas não é. Não é apenas sobre a alta classe ameaçada pelo mundo real. Em tom operístico e virtuoso, todo um universo de velharias e requinte desmorona com a chegada de novidades inesperadas e abertura de feridas classicistas, sexuais e políticas no cerne de uma família, feito monumental amparado por um grande elenco.

Pippo Delbono é o marido distante que sentirá o peso de um belo par de marfim na cabeça. Alba Rohrwacher é a filha com escolhas sexuais arrasadoras e Flavio Parenti é o filho revolucionário, ambos desejosos assim como a mãe, de começar a vida longe de tradições maniqueístas.

Edoardo Gabbriellini é o jovem cozinheiro, estopim das confusões. Para a abertura do filme e com muita solenidade, o veterano Gabriele Ferzetti é o patriarca que nem imagina o quanto os ventos da mudaça serão capazes de apagar os hieroglifos escritos por sua família num passado distante.

Ao seu lado, Marisa Berenson é a carcereira de filhos, nora e netos. É um prazer imenso curtir a estrela dos clássicos Cabaret e Barry Lyndon, montada em vilania. 

Uma das coisas mais curiosas em assistir I Am Love é esbarrar na beleza atemporal e estranha de um filme surgido em época inoportuna. O filme evoca o desprendimento de velhas tradições dialogando em linguagem antiga e relembrando grandes clássicos do cinema, justificativa plena do seu sucesso mundial.

Na era dos efeitos mirabolantes e pirotecnia, esse retorno as origens hipnotiza desde os créditos de abertura. É cinema puro, literário e emocional, feito no osso do peito e sustentado em emoções verdadeiras. Não deve ser apenas assistido, precisa ser apreciado como um banquete para os sentidos.

Stanley Kubrick e Lucchino Visconti são homenageados nessa devassa das tradições de uma família italiana controladora e dinheirista, isolada numa mansão milanesa em momentos de erupção. O filme também corteja outras grandes famílias italianas que ditaram regras no cinema, como os Salina de O Leopardo e até mesmo os Corleone, em O Poderoso Chefão

I Am Love é um projeto pessoal de Tilda Swinton e do diretor Luca Guadagnino, acalentado durante dez anos e nascido do desejo mútuo de ressuscitar a linguagem clássica da sétima arte, capaz de casar técnica e emoções, para contar uma história cheia de personagens aprisionados e receosos em assumir sua verdadeira postura numa guerra entre tradições e sentimentos.

A precisão do filme é absurda, o que garantiu duas indicações ao vindouro Oscar 2011, nas categorias de melhor filme estrangeiro e nos figurinos de Antonella Cannarozzi. Difícil é explicar a ausência de uma indicação para Tilda Swinton, inglesa até o talo, entregando um papel bilíngue, falando russo e italiano. Não lembraram também da fotografia requintada de Yorick Le Saux, a direção de arte de Francesca Balestra Di Mottola e a trilha sonora grandiosa de John Adams, elementos tão essenciais da história quanto os personagens.

Posso causar uma ponta de inveja ao dizer que assisti esse filme no cinema Curzon em Londres e adorava descer nas estações de metrô e me deparar com o seu imenso pôster. Revisitei o filme na última noite, na paz do meu quarto, com o olhar mais atento e continuo bestificado com a beleza da peça.   

Meio mundo não vai gostar do ritmo pacífico e langoroso, mas quem estiver disposto em perder-se na sedução das imagens e sons, sentir as emoções e apiedar-se de criaturas entediadas tentando fugir de gaiolas de cristal, que infelizmente não aprisionam revoluções e sentimentos honestos, encontrará um filme de rara emoção.

Antes que eu me esqueça, Quentin Tarantino  listou o bendito filme como um dos 20 melhores que ele assistiu em 2010. Já serve de consolo para a massa pseudo-cult.

sábado, 6 de novembro de 2010

A lua e eu



La Luna

Ópera naturalista e féerica de Bernardo Bertolucci sobre o incesto, realizada três anos após o ataque de megalomania que originou 1.900 e sete anos depois do polêmico e amanteigado O Último Tango em Paris.

Ninguém usa manteiga em La Luna, mas o complexo de Édipo é levado ao extremo do desespero. Sem abrir mão da sofisticação, Bertolucci filma tudo com pompa desmedida, roteiro feito em família, com o irmão Giovanni, a cunhada Clare Peploe e retoques de Franco Arcali. A sublime fotografia é de Vittorio Storaro.

Bernardo é um cara porreta, extrai o melhor dos seus atores e castiga Jill Clayburgh em cena, como a diva de ópera arrasada, num momento introspectivo e sombrio, papel marcante de sua carreira. Cansada e fragilizada, viúva da noite pro dia,  parte com o filho adolescente para a Itália e começa o problema, pois o garoto não menos fragilizado pela morte do suposto pai envolve-se com drogas e a mãe, tentando salvar o filho de todas as maneiras, involuntariamente apaixona-se por ele. É a última tentativa de uma mulher em crise para resgatar a sanidade do jovem, ou de ambos, arrasados pela perda da figura masculina em suas vidas.

Os dois confusos entram num devaneio. O garoto com as drogas e a mãe arrasada pela idade acreditam que devem amar um ao outro e sobreviver um do outro, chegando aos finalmentes da purgação e da descoberta mútua de uma paixão incestuosa, entregando-se de corpo e alma.

Cheio de cenas líricas e dolorosas, todas musicadas com árias operísticas, beira o lírico e resbala no desconforto, com os atores pendendo entre o arraso e o desnorteio existencial, viajando no texto enquanto câmera extrai beleza de qualquer coisa em movimento.

La Luna, a lua, é testemunha ocular. Ela está sempre no céu, redonda e brilhosa nos momentos mais cruciais, inclusive na catarse final, a chave do mistério que leva a crer que o incesto é genético.

O elenco de apoio é cheio de presenças fundamentais. Fred Gwynne é o pai que morre no início da história. Alida Valli aparece para duas cenas emocionantes. Peter Eyre é britânico frescalhão apaixonado pela diva. Franco Citti é o gigolô encantando pelo adolescente ao som de Bee Gees. Veronica Lazar é a lésbica mal resolvida, Tomas Millian é o recalcado que carrega todo o segredo da história. Até o palhaço do Roberto Benigni já estava por aqui, fazendo murisquetas como um instalador de cortinas.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

'Eu cantaria até o dia nascer para mantê-la viva...'



Noite De Desamor é com toda certeza um dos filmes mais emocionantes que eu já assisti na minha vida, sugestão de um grande amigo que sabia do meu gosto por filmes com longas conversas e boas atuações. E o cara acertou em cheio. Melhor mesmo, só um outro amigo que descolou recentemente uma versão do filme, infelizmente ainda não disponível no mercado de DVD nacional, que revi em mais uma madrugada insone. 

É uma profunda reflexão sobre o suicídio, defendida por duas grandes atrizes que armam uma guerra de atenções para saber quem emociona mais. A efusividade de Anne Bancroft luta contra a dor de Sissy Spacek em cada segundo de filme. Aos 21 minutos, a coisa já encardiu seriamente em cena.

E eu  é que não vou ficar de rodeios: Sissy Spacek é Jessie, meticulosa, divorciada, epiléptica e com um filho problemático que raramente dá as caras. Mais que isso, sua personagem é sarcástica e determinada, está de saco cheio da vida e traçou um objetivo de maneira fria durante dez longos anos: no final da noite de sábado, vai cometer suicídio. É o seu direito, a chance de escapar para a tranquilidade almejada dos sete palmos abaixo da terra, abandonar a incompreensão do mundo e o zelo de sua mãe, Thelma.

A saudosa Anne Bancroft é a mãe meio doidinha que não sabe viver sem a filha. 
É o oposto da fatigada Jessie. Vivida e experimentada, dribla todas as agruras da vida com um sorriso, algumas fofocas e doces espalhados pela casa. Seus esforços em impedir a filha contribuem para a tensão crescente do filme e enquanto a noite avança, Thelma percebe que a filha não pretende desistir. 

Quando eu digo que o filme me emociona profundamente, não sei nem se o ponto exato da coisa está na fadiga e a determinação da filha suicida ou nos esforços da mãe em preparar maçã caramelada e chocolate quente para salvar o único amor que lhe resta numa noite de lembranças e lavação de roupa suja entre as duas, com emoções tão cruas e nada sutis. 

O filme não é pouca coisa. É um vale de lágrimas honesto em que a mãe procura incansavelmente um motivo para o ato da filha. Sentimentos são dissecados com amargor e frustrações reprimidas ganham a tela, numa terapia de sentimentos em que a filha tenta justificar as suas decepções e aliviar a barra da mãe, apesar de ter organizado perfeitamente a sua despedida e não voltar atrás em sua escolha.

Deveria ser como todas as outras noites de sábado que as duas passaram juntas, mas um fim de semana tranquilo vira uma confronto de duas vidas, uma querendo acabar e a outra, lutando para impedir. 

Extremamente teatral e dialogado, não recomendável para quem não tem paciência de apreciar um texto sincero e coerente sobre as merdas da vida. Falando em teatro, o filme é adaptado de uma peça de Marsha Norman, considerada altamente polêmica e impressionante para a época de sua estréia, 1983. Brincando, levou o Pulitzer de melhor drama teatral.

O diretor do filme, Tom Moore, é o mesmo que conduziu a peça ao sucesso nos palcos e concilia muito bem a emoção com a visão estética. Noite De Desamor é um título abrasileirado. O nome original do filme 'Night Mother, é apenas 'Boa Noite, Mãe', o mais triste da história do cinema. A trilha sonora de David Shire é outro mérito do filme, com densos solos de violão ouvidos apenas em momentos necessários.  

Curiosamente, nenhuma das duas atrizes recebeu indicações ao Oscar, motivando a fúria de Anne Bancroft na época, que disparou: 'Eu deveria ter sido indicada apenas por memorizar todas aquelas falas!'

Não só isso, Anne. Você e Sissy mereciam qualquer prêmio por esse filme.  

segunda-feira, 26 de julho de 2010

As Mulheres de Fassbinder


LOLA

A minha paixão por Lola é antiga. É um dos primeiros filmes "europeus" que eu assisti na vida, nos idos do VHS. Barbara Sukowa continua arrasando meu coração, assimo como Fassbinder, o diretor da peça e cineasta que eu respeito pra burro, assim como Peckinpah, Kubrick, Fellini, Bergman e companhia. Lola, realizado em 1981, é a segunda parte da trilogia iniciada em 1979 como O Casamento de Maria Braun e finalizada em 82 com O Desespero de Veronika Voss.

Maria, Lola e Veronika são três mulheres diferentes, mas todas viveram na época do pós-guerra, na reconstrução da Alemanha nazista pela mão de Adenauer. E mais importante que isso, todas são divas teutônicas inspiradas nas starletts dos anos 50, dos filmes de Douglas Sirk. Até nisso Fassbinder toma cuidado, homenagear uma época dourada do cinema americano e amargar na crítica social.

O roteiro de Lola é o que melhor representa o período de reconstrução da Alemanha. Até o triângulo amoroso contado aqui gira em torno de negociatas que visam o bem comum.

Barbara Sukowa é Lola, como Marlene Dietrich, e destrói outros corações além do meu. Sua personagem é uma mulher de negócios esperta e calculista, prostituta ambiciosa divivida entre Schukert, um malandro construtor público que superfatura obras e Von Bohn, o novo chefe de departamento que representa o puritanismo. Schukert não quer perder a teta financeira posta em risco com a chegada de Von Bohn e Lola, no meio dos dois, vai dar sua mordida e conseguir a emancipação financeira.

Todos estão dentro de um novo sonho econômico, uma nova Alemanha mais simpática e sem o constrangimento causado pela febre nazista. O povo que perpetra o sofrimento do pós-guerra, faz de tudo para recomeçar, buscando cultura até num puteiro. Os cenários estão sempre em construção, escuta-se o barulho de obras e as paredes estão sempre esburacadas. Até as piranhas do bordel estão preocupadas com investimentos. Os poderosos fazem negociatas em meio a bebedeiras e mulher pelada, deixando claro que se o destino da cidade está em vias de ser resolvido numa casa de rendez-vous, então o serviço público também é uma putaria.

A corrupção e a prostituição caminham de mãos dadas e todo mundo quer o seu 10%.

Tecnicamente Lola é irrepreensível. Fassbinder fazia teatro filmado. Seus atores ensaiavam e a maioria das cenas era feita em tomada única, prova de que ele acreditava no potencial do elenco. A fotografia de Xaver Schwarzenberger marca em cores quentes que beiram a breguice, o perfil dos personagens. Lola tem uma luz rosa, enquanto Von Bohn está sempre em azul.

Barbara Sukowa e Armin Mueller-Stahl brigam seriamente pela atenção em cena.

Mario Adorf é o rotundo Schukert, a melhor coisa do filme. Misto de cafetão e magnata, apaixonado por sua cocota e morrendo de medo de perder a grana. Matthias Fuchs é o vingativo e mal amado Esslin, que joga tudo no ventilador, também na esperança de conseguir o que é seu. Rosel Zech, bem antes de viver Veronika Voss, é a preconceituosa Frau Schukert.

A trilha sonora é de Peer Raben, pra variar. Entre as canções e cenas do filme, duas cantadas por Barbara Sukowa, ficam pra eternidade: a primeira é Am Tag Als Der Regen Kam, no início e pra fechar bonito é The Capri Fisherman, onde Lola, possuída e descoberta, agita o boteco num frenesi de loucura inesquecível.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Caminhando e se lascando...



Então eu assisi A Estrada. Filme interessante, sobre solidão, desespero e a falta de futuro no futuro. Silencioso, com uma criança sofrendo pra garantir o apelo dramático. Algumas cenas chocantes e nervosas, meio sinistras.

O filme, passa-se de vez em quando pra terror. Os recursos naturais esgotaram, o povo ficou com fome e tão tudo se comendo. É um terror, que assusta aos poucos, com bizarrices. Na ausência de zumbis ou criaturas de Lovecraft, entram uns canibais fodões, gerados pela fome e o desespero.  

Viggo Mortensen e Kodi Smith-McPhee são pai e filho, rumando para o litoral em busca de comida, num cenário monocromático e pós-apocalíptico, desculpa para um show de fotografia de Javier Aguirresarobe. Os dias com o ventre da terra á mostra, o céu sem sol e a chuva de bosta, chegaram, o problema silencioso é sobreviver.

Pela primeira vez, Viggo Mortensen me impressionou. Seu personagem, o homem, traz na cara uma fadiga dolorida de inebriar a vista. Lhe confere honra, o personagem com paternalismo de velho guerreiro. Ele sim, é a lenda.

Robert Duvall, Charlize Theron e Guy Pearce, todos com pouquíssimo tempo de cena, impressionam com discrição. Se eu não tivesse lido o nome do Duvall na capa do filme, por pouco não o reconheceria. Quando seu personagem se apresenta como Ely, pensei "aquele que escreveu o livro do Denzel, no filme que parece com esse aqui?". Charlize aparece como a lembrança de dias felizes e Guy, é o redentor.

Adaptação de um romance de Cormac McCarthy, descoberto pela mina de ouro Hollywoodiana após o sucesso de Onde Os Fracos Não Tem Vez, também de sua autoria. Cormac ao lado de Dennis Lehane, é um dos autores mais adaptados do momento.

Tal qual o livro e pra alegria dos leitores, o que realmente aconteceu com o planeta, jamais é explicado. E o pessoal cult que agradeça, ou ficariam todos sem teoria nova para o papo de boteco pseudo-filosófico de sexta á noite.

E quanto a um filme parecer-se com o outro? "Ah, mas A Estrada parece O Livro De Eli!". Não assisti O Livro ainda, mas conformem-se. Um Sonho Possível parece com Preciosa e ambos ganharam Oscar.

That's entertainment!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Um sonho... possível?



Um Sonho Possível


Eu sou uma pessoa teimosa. Noite passada eu quis me torturar. "Vou assistir Um Sonho Possível, ver se essa porra de Oscar tem razão com o prêmio da Sandra Bullock."

Começo a assistir e deu meia hora, pensei: "Qualé! Já vi isso!".

O filme é um primo rico de Preciosa. Aqui, os sonhos de Preciosa viram realidade. Repara comigo: ambos os filmes tratam de pessoas gordas e negras que todos consideram estúpidos, foram abandonados pelas mães e conseguem superar as dificuldades da vida.

A diferença desse aqui é a ausência de fada-madrinha para a gordinha de nome estranho de Preciosa, simples. O drama é batido, previsível em segundos. Até um acidente automobilístico é previsto.


O filme, é um libelo para provar que pessoas lindas, ricas e loiras sabem fazer caridade abaixo de piadinhas racistas de envergonhar quenga de esquina. É para garantir que o Sul dos EUA ainda é um lugar atrasado cheio de códigos, rapapés sociais e preconceitos. E sobretudo, perpetuar a existência desse tipo de filme, popularíssimo entre professores, bacharéis, doutores e donos de boteco que curtem essas teorias de que a vida funciona como em qualquer esporte. O importante é competir.


Momentos bonitos não faltam. Foram concebidos com o cuidado de estar ali, emocionando o povão. Eu mesmo, me emocionei várias vezes com o filme, sem verter lágrimas, porém tocado. A fotografia e a trilha sonora de Carter Burwell também ajudam. Saber que é baseado em fatos reais então, me tira o fôlego.


Nem tudo está perdido. Jae Head como o pequeno mercenário SJ, é a melhor coisa do filme. Um garoto espontâneo misto de empresário, gigolô e cafetão. Kim Dickens é a belíssima Sra. Boswell, que acredita no herói. O protagonista Quinton Aron também é um poço de simpatia, sério. Kathy Bates é a Madame Sousatzka da vez.

A moça que levou o Oscar, Sandra Bullock, não decepciona jamais. Com o excesso de plásticas e os movimentos faciais ainda mais bloqueados, Sandra está errada em todos os níveis, parece uma caricatura de Dolly Parton, sem as tetas e a cara de anjo. Falseando sotaque e forçando a cara de drama (ou seria constipação?), é uma piada sem fim. Nos anos 80, teria arrasado corações com tanta canastrice junto ao pessoal do Dallas. Como num pesadelo, visito o IMDB e descubro que Julia Roberts era a primeira escolha para o papel da loira perua caridosa. Obrigado Jesus. Dois Oscar para Julia seria demais para il mio cuore.

Claro, eu entendi o pito desmoralizador: Temos sempre que proteger o lado cego de quem amamos de verdade.

Lindão, né?
Me emociono...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Down Down Down no High Society

MRS. HARRIS

Se a intenção do filme era humanizar Jean Harris,

a ilustre madame que nos anos 80 matou o Dr. Tarnower, a tarefa finda-se com amargor romântico na visão feminista e sensível de um notório crime.

Quase um documentário com os atores dando depoimentos interpretando os verdadeiros personagens da tragédia. Lembra O Reverso da Fortuna, meticulosa reconstituição de outra burrada da alta sociedade americana, o caso Von Büllow. É espantoso o quanto os ricos americanos adoram se matar, promover tragédia. Pobre se mata todo dia e nem por isso vira sensação.


Jean era uma dama que pendia entre a sofisticação e a arrogância. Nos anos 60, ela conheceu Herman Tarnower, o mulherengo esquisito que inventou a famosa dieta de Scarsdale.

Os dois partilharam por 14 anos de um amor frio embalado pela paixão inexorável de Jean diante da indiferença de Tarnower com o sexo esquisito e meticuloso num relacionamento depressivo e psicótico, onde a mulher que precisava de segurança esperou demais do homem que era apenas um velho rico bem-dotado que adorava contabilizar suas conquistas. Não há cabeça, pessoa ou mulher que resista a tamanha maldade e se ela passou fogo nele, parecia estar com a razão.

Anette Bening confere glamour, charme e dor em sua interpretação de Jean, carrega o filme com toda a sua neurose. Ben Kingsley é um cara esquisito, meio porcalhão e escandaloso que se encaixa perfeitamente no papel de Tarnower, um homem que gostava de conversar enquanto a amante lhe masturbava.

Cloris Leachman está impagável como a cunhada jararaca. Chloë Sevigny é a amante ridiculamente submissa que chega ao extremo de pintar os móveis da casa de Tarnower, apenas por amor. Ellen Burstyn, que já interpretou Jean Harris em outro telefilme, aparece numa pontinha misteriosamente indicada ao Emmy, como uma ex-amante de Tarnower.

No fim das contas, muita coisa ficou no ar e disseram que Jean foi para a casa de Tarnower querendo se matar. Durante uma briga para desarmá-la, a arma disparou acidentalmente e Tarnower foi para o beleléu. 12 anos de cadeia para Jean, com direito a absolvição, o sucesso e trabalhos filantrópicos em prol das presidiárias de Bedford Arms.

Produção televisiva, coisa de luxo da HBO dirigido por Phyllis Nagy partindo do livro de Shana Alexander e com direito a damas fatais do cinema na abertura ao som de Put The Blame on Mame.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Amor e Tentação / Inferno e Danação

A NOITE DO IGUANA

Como todo bom texto de Tenesee Williams, este filme é carregado de personagens peculiares, tensão sexual e diálogos ferinos.

A direção corajosa é do grande John Huston, trabalhando no México que ele tanto amava e com um orçamento altíssimo apenas para pagar o salário dos astros. Huston, disposto a criar tensão entre o elenco isolado, presenteou cada ator com uma pequena pistola banhada á ouro carregada de balas com o resto dos nomes do elenco. Ou seja, se a coisa esquentasse e alguém perdesse a paciência de verdade durante as gravações, todos tinham carta branca para matar um ao outro com direito á bala personalizada.

O caldeirão ferve intensamente no hotel Miss Malay na costa do México, lugar escolhido por um ex-padre, uma decadente viúva, uma pintora fracassada, uma ninfeta fogosa e sua protetora, todos em busca de alívio para seus demônios interiores num clima sórdido, triste e por vezes cômico de lavação de roupa suja ou intensa terapia defendido com classe pelo roteiro teatral do próprio Williams, com a ajuda de Huston e Anthony Veiller.

O elenco é de um magnetismo estupendo. Richard Burton com toda a malícia do seu sotaque inglês, é o protagonista andando no fio da navalha e tentado por três mulheres,
cada uma com um desejo específico nada agradável para a sua pessoa. E para um sacerdote perdido entre as convicções religiosas e o desejo carnal, Burton encontra-se em papos de aranha, mal arranjado entre tantos arquétipos femininos, afastando-se cada vez mais da realidade e mergulhando num abismo pavoroso de danação.

As três musas que infernizam o coração e a fé de Burton, não poderiam encontrar melhores intérpretes. Ava Gardner é a saidinha dona do hotel, a viúva conformada e conivente com todos os caprichos e trambiques de Burton, pois esboça desde o início a vontade de tornar-se a esposa do reverendo e ser amada com toda intensidade. Deborah Kerr tem ares de anjo da guarda no papel de uma feérica pintora sem um pinto pra dar água, sempre com a sabedoria na ponta da língua para expiar os pecados da galera. Sue Lyon, dois anos após o sucesso de Lolita, repete o papel da ninfeta caliente pronta para se ajoelhar aos pés do sacerdote com a pior das intenções.

O elenco de coadjuvantes também é um caso de admiração e respeito. Cyrl Delevanti entra como o poético avôzinho, perdido entre seus versos de despedida do universo aporrinhante. Mary Boylan é o rascunho do mapa do inferno, a horrenda Beebee.

Roubando na cara dura a maioria das atenções de quem assiste, Grayson Hall é a harpia lésbica pregadora da desgraça. O rosto feroz e os destemperos emocionais garantiram a soberba dama inglesa uma indicação ao Oscar de coadjuvante na época.

Para um filme de 1965, A Noite do Iguana tem coragem de sobra. Se hoje em dia o cinema ainda consegue impressionar o público com temas polêmicos, é de se pensar nos espectadores daquela época diante de uma história sobre devaneios amorosos, insultos de chumbo grosso todos direcionados a sexualidade de cada personagem, porres de rum, cigarrinhos malditos e Ava Gardner aos amassos com dois muchachos na praia.

A trilha sonora melancólica é de Benjamin Frankel e a fotografia de Gabriel Figueroa.
Os figurinos de Dorothy Jeakins foram premiados com o Oscar. Antes da tela grande, o texto de Williams estourou nos palcos da Broadway em 1961, tendo Bette Davis diante do elenco no papel de Maxine, a dona do hotel.

Durante as gravações, o explosivo caso de amor de Richard Burton e Elizabeth Taylor acabou vindo á tona. A atriz não se acanhava de visitar o amante constantemente no set, virando alvo de notícias e fofocas no mundo todo.

O título esquisito menciona uma tradição mexicana: caçar, prender, cevar e devorar a iguana.


Não é preciso explicar onde se encaixa tal metáfora, certo?

sábado, 23 de maio de 2009

Aronofsky + Rourke = Um Puta Filmaço!

O LUTADOR

Randy “The Ram” Robinson é a Norma Desmond da luta livre, curtindo as mágoas do seu crepúsculo particular. Atormentado por lembranças, embriagado pelas glórias e esperançoso com o distante sucesso. Sobrevive de lutas armadas e sangrentas.


Não tem dinheiro para o aluguel, mas não falta o troquinho das strippers e dos esteróides. Usa a força outrora aniquiladora para descarregar caixas num supermercado. É a triste realidade de um brucutu falido e decadente, uma montanha de músculos que quase não pensa, mas sofre demais.

Surdo e infartado por conta de uma luta de virar o estômago, o ídolo caído começa a sentir o medo da solidão. O pior ringue é o cotidiano o cruel adversário é o fracasso e o prêmio, é a vida não vivida, que chega de mansinho no sorriso desperto na filha negligenciada e na descoberta do amor.


A escolha de Rourke desde o início pelo sábio diretor, dificultou até o financiamento do filme. Os produtores queriam Nicolas Cage (deus nos livre!) e não acreditavam no potencial de alguém obsoleto e com talento para confusões.
Mas essa história é manjada, Cidadão Kane levou pau da crítica na estréia, Jack Warner não acreditava no potencial de Bette Davis e Joan Crawford já envelhecidas e Blade Runner foi um fracasso de bilheteria. A teoria aplica-se perfeitamente aqui. Não é o retorno triunfal de Rourke ao cinema. Ele sempre esteve por aqui e deu o primeiro tour-de-force em Sin City. Agora chegou a vez de esboçar a dor, digna de lágrimas e piedade, paralela com a sua própria realidade de astro em fim de carreira.

Se ele está acabado e não tem mais o rostinho de galã dos anos 80, o que fazer?
É a lei natural, o peso da idade e o preço que se paga pelas loucuras e exageros.
Peito cai, barriga cresce, bunda fica flácida, são coisas da vida. Brigite Bardot não é mais uma gracinha, Robert Redford não arranca mais suspiros e Meg Ryan já está com a boca na orelha. Beleza e talento raramente andam juntos. Rourke perdeu violentamente no primeiro quesito, mas no segundo melhorou com o tempo, e muito.

O que falta de beleza para Rourke sobra para Marisa Tomei, uma espocada de tesão e simpatia em cena como Cassidy, a stripper benevolente que ensinará Rourke a olhar o lado bom da vida, entre doses de tequila e danças quentíssimas no colo do grandalhão.
Evan Rachel Wood, em curta participação, é a filha esquecida e feroz do lutador, responsável pelos momentos lacrimosos necessários a trama.

Mais um ponto bem marcado por Darren Aronofsky, um diretor com uma paixão toda especial por mentes perturbadas e titereiro de personagens cheios de amargor. Sua visão realista e dilaceradora de perturbações psicológicas e sentimentais, costuma levar o espectador ao delírio. Ele não deixa barato e transforma o roteiro vívido de Robert D. Siegel numa odisséia construída no limite da veracidade sufocante.

É inevitável a comparação carinhosa: Randy é tão sofredor quanto Max Cohen, Sara Goldfarb e Tom Creo, personagens distintos da curta e fabulosa filmografia de Aronofsky.

E que venha um novo filme dele, rápido!