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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pouca grana e muito susto


HALLOWEEN (1978)

Ontem a noite, presenciei uma acalorada discussão sobre os assassinos do cinema americano, os mascarados famosos que trucidaram meio mundo. Falaram apenas de Sexta-Feira 13 e das peripécias de Jason, algumas até copiadas do cinema europeu. Enquanto a galera fervorosa defendia o Jason, de quem sou grande fã também, falei na surdina que um dos meus filmes favoritos desse gênero, do tipo que não assisto a noite juntamente com O Exorcista, é Halloween, dirigido pelo grande John Carpenter em 1978.

Halloween é uma gema do terror que prova como o minimalismo e a sutileza podem ser enervantes graças a engenhosidade dos realizadores. John Carpenter utiliza duas fórmulas imbatíveis de Alfred Hitchcock: levar o perigo para um lugarzinho aparentemente sossegado e intensificar o suspense sem mostrar a bomba explodindo, filmando apenas a caixa com o tic-tac.

É o primeiro filme americano com um assassino mascarado, criador das regras básicas que perduraram até os anos 90 com o ilustre Pânico de Wes Craven: não beba, não trepe, não use drogas e nem saia de qualquer recinto dizendo que volta já. Poucos são aqueles que voltaram em filmes de terror.

Michael Myers é o lunático que matou a irmã na noite de Halloween aos seis anos de idade.  Personificado como o mal inevitável além das fronteiras da normalidade, ele tem em seu encalço o Dr. Loomis, que passou oito anos tentando entender a brutalidade do assassino e mais sete anos, mantendo Myers preso. Agora que o bicho papão escapou, todos os esforços tornam-se pífios para salvar a pacata Haddonfield do perigo iminente.

O rol de vítimas é formado por pessoas comuns e atores desconhecidos para a época. Ninguém comete arroubos dramáticos, conferindo ao filme a veracidade cotidiana destruída lentamente por um monstro humano. Em cena, temos um grupo de adolescentes interessados em curtir a vida, beber e fazer sexo como se não houvesse amanhã. Destoando dos amigos marotos encontra-se a virginal Laurie, obediente, estudiosa e talvez por isso, poupada de levar umas boas facadas. Via de regra, os inocentes conseguem escapar de vez em quando.

No elenco o ator mais conhecido era o veterano Donald Pleasence substituindo duas recusas famosas, de Christopher Lee e Peter Cushing para o papel de mocinho envelhecido. Pleasence imortalizou  o incansável Samuel Loomis, o psiquiatra que não acredita mais nas teorias e carrega um trabuco para curar o seu paciente. Todo bom fã da série sabe que o doutor Loomis perseguiu Myers até o sexto filme, já em cadeira de rodas e não foi visto apenas em Halloween III, o único que curiosamente não tem nada a ver com a saga de Myers. O filme também marca a estréia no cinema de Jamie Lee Curtis no papel da mocinha, uma das famosas rainhas do grito.   

Considerado por muitos O Poderoso Chefão dos filmes de terror, Halloween é implacável e assustador  como o serial killer que parece conduzir a câmera deixando o público na tensão de adivinhar o que vai acontecer a qualquer segundo. Esse voyeurismo incomoda, junto com a rapidez silenciosa do carrasco e sua pesada respiração, transformando o filme numa estranha experiência onde cada segundo contribui para o desespero.

Todos os méritos ficam com o roteiro de  John Carpenter e Debra Hill  que transforma o assassino no elemento principal da história, trabalhando a tensão de maneira sufocante. Enquanto o filme desenrola, é impossível manter qualquer sensação de segurança diante da maldade onipresente de Myers, camaleão mimetizado com o escuro apesar da face inexpressiva de pesadelo, uma simples máscara do capitão Kirk de Star Trek pintada de branco e com cortes nos olhos, réplica do rosto de William Shatner. A figuraça por trás da máscara é Tony Moran, um desconhecido dublê.

Halloween foi feito na raça com míseros 325 mil dólares, arrecadando 47 milhões na semana de estréia nos anos 70, transformando a pequena pérola do terror num dos filmes independentes mais lucrativos e inteligentes da história do cinema e por isso, não conseguiu escapar nem da recente onda de refilmagens.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Pura Maldade



NOSFERATU (1979)

Múmias verdadeiras na abertura, morcegos e muita liberdade na hora de refazer um filme referência num país que era pobre nos anos 20 em cineastas por conta do nazismo. Werner Herzog dirigia em 1979 o seu primeiro e último filme de terror custeado por um grande estúdio, tirando inspiração de tudo que é canto.

Segundo ele, não é uma refilmagem. É apenas um reaproveitamento do material, um retorno as origens. Herzog acreditava que todos deveriam honrar suas tradições. Nada mais justo do que repaginar nos anos 70 uma das grandes obras do terror do cinema expressionista alemão dos anos 20.

Renoir para os cenários, Wagner e Gounod na trilha sonora, sem abrir mão da mágica do terror, das regras básicas. Existe uma preocupação tremenda na qualidade da luz, no áudio como forte elemento narrativo e na dor dos personagens que atenua a presença física de algo maligno. A beleza idílica apodrece gradativamente enquanto o vampiro vai tomando conta do destino de cada um.

Raras são as vezes em que o cenário, as paisagens ou a música de Popol Vuh mesclada a árias operísticas, se sobressaem mais que os personagens, sem levar em conta os circos de efeitos especiais da atualidade. 

Klaus Kinski, o melhor inimigo de Herzog, pra variar brigou com meio mundo durante o filme. A única pessoa que Kinski tolerava era o maquiador, com quem passava quatro horas diárias antes de começar as gravações.

Trabalhando com as mãos e uma tristeza gigantesca no rosto, Kinski estiliza a vilania e o amargor. O vampiro é um estandarte de desejos insatisfeitos em busca de sangue e paixão. Está na maior fossa, não pode morrer.

É um ser patético e solitário que deseja mais a partida do que a reencarnação de sua musa, vivida pela deliciosa Isabelle Adjani, enlouquecida pelo vampiro antes mesmo dele aparecer, perfeito contraponto em delicadeza e mágoa diante da feiúra doentia de Kinski. O amor da mocinha não resolve muita coisa. Herzog não dá espaço para a delicadeza ou redenção.

Bruno Ganz é o herói corajoso e descrente, que também será arrebatado pelo apetite incontrolável do conde. Seu personagem em relação ao vampiro lembra Dorian Gray e aos poucos vamos percebendo perto do fim que a caçada ao monstro nada mais é do que uma viagem ao seu interior.

O escritor Roland Topor aparece como o louco gargalhante. Walter Ladengast vive um cansado Van Helsing, detentor de sabedoria que não vence o vampiro, uma interessante perversão do final da história de Bram Stoker.  

Rodado na Holanda, pois a produção não pode entrar na Romênia, que vivia sob a mão de ferro de outro vampiro, o ditador Nicolae Ceausescu.

O Nosferatu de 1922 era uma adaptação não autorizada da obra de Bram Stoker, geradora de uma grande confusão com a viúva de Bram, que mandou destruir quase todas as cópias do filme. Durante a produção, Herzog pediu autorização e restaurou os nomes originais dos personagens conforme a narrativa de Stoker.

Por imposição da Fox, o filme foi rodado simultaneamente em dois idiomas, alemão e inglês. Foi a maior zona, pois alguns atores tinham que ser dublados por americanos. Nosferatu foi um fracasso monumental que empatou a carreira de Herzog em Hollywood.

Os vampiros estavam voltando na época e o filme foi aniquilado graças ao americano Dracula, por John Badham e custeado pela Universal. Frank Langella, Laurence Olivier, Donald Pleasence e Kate Nelligan estavam no elenco amparados por uma dose altíssima de sensualidade. Noves fora, o filme de Badham tem seus méritos.

Mas é difícil não assistir este aqui e tirar Nosferatu da memória. Qualquer um fica bestificado diante da releitura grandiosa feita de um conterrâneo para outro. Herzog pega a obra-prima de Murnau e a intensifica, coloca uma beleza de encher o olhar e parar o coração, com tudo o que possa existir de sinistro, incluindo a dominação total do mal exterior e interior na história.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Uma simples continuação e algumas emoções tardias



REC 2

Quem lembra da repórter Angela Vidal, aquela que estava rodando um programa noturno com os bombeiros de Barcelona e entrou de gaiata no olho do furacão, durante uma misteriosa epidemia ocorrida em um prédio velho?

Angela sobreviveu? E o que era a tal epidemia do enervante REC?

Assisto o segundo filme e corro para a internet me deparando com várias críticas negativas sobre esta continuação, algumas até repudiando a solução dos mistérios do primeiro filme. Os detritores interessados em saber qual o problema do padre que morava na cobertura e sua relação com a tal menina Medeiros levantaram-se em paus e pedras, reprisando um fenômeno conhecido: o primeiro filme foi tão superestimado que teve gente esperando a mesma carga de novidade deste segundo.

Sentaram bonito todos os que esperaram aquele caso raro de sequência que supera o filme original, pois REC 2 é uma cartilha explicativa que esclarece os pontos de interrogação do primeiro filme, um simpático e inovador fenômeno cinematográfico que disparou os batimentos cardíacos de meio mundo, inclusive deste que vos escreve.

O cenário é o mesmo, a receita também. Os diretores seguiram a cartilha e realizaram um filme satisfatório com as mesmas fórmulas. Um grupo de resgate entra no prédio em busca de sobreviventes, novamente com uma câmera na mão e tome-lhe chinelo, grito, correrias, sangue, tiro e o bom e velho desespero coletivo, coisa que funciona bem desde os filmes catástrofe de Irwin Allen da década de 70.

No auge do falar mal, ninguém reparou na sutileza das novidades: o aparecimento de dois pontos de vista diferentes da mesma tragédia, um do grupo de resgate e o outro de três adolescentes burros que entram no prédio onde começou a confusão toda.

Aumentaram também o mal onipresente dentro e fora do prédio, gerando aquele clima tremendo de desconfiança onde todos são suspeitos e as aparências, como sempre, enganam todas as possíveis vítimas e os heróis equivocados. A ameaça assume proporções quase épicas em história, por mais que o roteiro demonstre algumas crateras, e em ambientação, sem perder o compasso da tensão.

A resolução do mistério só poderia ocorrer em meio a claustrofobia da escuridão, eterna convidada dos filmes de terror e aqui, pobremente iluminada pela visão noturna de uma câmera, mesma chave do fim do primeiro filme.

Quem merece umas boas ofensas é a distribuidora nacional do filme, que em pleno estado de burrice, denuncia a brincadeira no subtítulo da capa do DVD.

Após escrever sobre esta continuação, mexo nos meus textos antigos sobre cinema e descubro emocionado um entusiasta que me fez assistir REC, o saudoso amigo Felipe, que na época residia em Porto Alegre e me deu um telefonema, cheio de purpurina e êxtase: 'Vinny, eu acabei de assistir REC no cinema aqui e por favooooooooooor, tens que assistir!'.

E lá fui eu, metido a galo, assistir o primeiro filme com o aval do Lipe e a insistência do Edu e do João, que trabalhava comigo. Os rapazes acertaram em cheio e eu dormi uns dois dias com a luz acesa por conta do primeiro filme.

Em breve fico sabendo do Edu se ele gostou da continuação. Para falar com o João que hoje mora em Camboriú, a internet salva.

E para o Lipe, que aos poucos definhou e perdeu a joie de vivre, deixando meio mundo sem telefonemas risonhos, resta uma boa oração e a saudade.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Hora da Porquice (toda a minha fúria)


A porquice... oh, a porquice!
Mais suíno que o remake de Haloween, um sacrilégio em celulóide.

Satisfatório só visualmente, de tudo que é jeito. Elenco cheio de gente bonita, fotografia estilosa e pirotecnia pra encher linguiça. Coisa feita para a nova geração entender, coisa que é um chute bem na costura do saco.

Quando a nova geração quiser conhecer mitos, que vá a luta e force o cérebro. Assista os clássicos e pare de dar risada da precariedade dos efeitos antigos.

O roteiro ruim que nem esporro de professora de matemática, oferece apenas a perversão de uma idéia originalíssima surgida nos anos 80 e prostituída em 2010 por seu criador Wes Craven. Sinceramente, Wes foi muito mais feliz com os remakes de Quadrilha De Sádicos e Aniversário Macabro, Viagem Maldita e A Última Casa, respectivamente.

O novo argumento saiu do intestino de Wesley Strick, do cérebro é que não foi nem a pau. Em dias melhores, Strick roteirizou Desejos, Cabo Do Medo, Aracnofobia e Lobo.

Aí ele perdeu a razão e também roteirizou A Casa De Vidro e Doom. Até hoje ele não recuperou a sanidade e o que vemos em cena é a mistura de quatro finalistas dos quinze esboços rabiscados por Strick para este remake. Cheio de burrice, o cara limou até o pai meganha da mocinha, um dos heróis da trama original.

Terror não tem. Nem clima. É um filme limpinho e honesto, com a besteira do susto mútuo. Mãe chegando por trás de filho, amigo surgindo por baixo do outro, cagaços rasos e previsíveis que puxam o pé sem a ousadia de puxar para baixo da cama. 

Deveria ser mais um prequel contando a história de um dos grandes monstros do panteão do horror, o imortal Freddy Krueger. Sua história aparece apenas no final e impressiona de forma grotesca porque se aproveita de maus tratos infantis. O remorso dos jovens perseguidos em pesadelos por Freddy, graças a atitude criminosa dos pais, é de envergonhar a mãe do guarda. 

Fuzilamento pro elenco é pouco. Rooney Mara é a Nancy toda depressiva, dark de boutique. Kate Cassidy, um projetinho de Charlize Theron mal aproveitada por ser a única gostosa do filme e não brinda nenhuma cena com trajes mínimos, outro estupro de uma regra sagrada do filme de terror. Kyle Gallner, Thomas Dekker e Kellan Lutz contabilizam as vítimas masculinas. Clancy Brown é o pai feroz em dobradinha com Connie Britton, a cara dura que não consegue expressar pavor. 

O astro principal virou um coadjuvante. Reduziram o Freddy a pó de traque, com maquiagem pobre que deixou o rapaz com cara de lagartixa. Jackie Earle Haley foi o infeliz escolhido para usar o suéter do Fluminense e a luva de navalhas depois que Billy Bob Thornton fugiu, com razão, do filme. Jackie só meteu medo em alguém como o pedófilo de Pecados Íntimos. Aqui ele é um nanico desconexo, um monstro apático. 

Para o elenco dos clássicos, os produtores ofereceram uma participação a John Saxon, o pai da Nancy no filme original. Robert Englund que é bom, o primeiro Freddy, não foi considerado nem para o papel ou pontinha foi oferecida. É o primeiro filme sem o cara que participou religiosamente de todos, incluindo a série de televisão de 1988.

O pesadelo é na rua Elm e o nome da rua nem é citado no filme. O culpado pagante de tudo é Michael Bay, que deveria enfiar o rabo entre as pernas e continuar produzindo só filmes mirabolantes e divertidos com carros robóticos e deixar o terror de lado para sempre

Tão empolgante quanto uma reunião dos Vigilantes do Peso, o filme me fez andar de um lado pro outro na frente da televisão, torcendo pra acabar. A hora do pesadelo só começou quando constatei que meus cigarros é que estavam acabando.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O que terá acontecido a Teddy Daniels?



Agora eu posso começar um post de maneira chique. Assisti esse filme em Londres, durante minha curta aventura européia. Bancando mais o intérprete do que espectador, o filme acabou no cinema e eu tinha uma conclusão.

Revi o filme em casa na última noite, e tirei duas conclusões, uma sobre o final e outra sobre a graça, o prazer de assistí-lo. Ilha do Medo é um filme aberto, daqueles que você senta num banco de praça com seu melhor amigo, acende um cigarro e pergunta: "Diz aí, Jão, que carai aconteceu com o DiCaprio naquele filme?".

Não é o primeiro e nem será o último a acabar e deixar a gente cheio de dúvidas. Buscar explicações, obter conclusões e afirmar o que realmente aconteceu após duas horas de produção, é procurar defunto onde não tem velório.

Os pseudo-cults formularam teoria, os formadores de opinião pariram a suas. Beleza, tá legal. Mas ninguém é dono da verdade, nem eu. Por isso é que a maioria esqueceu de aproveitar o filme em ritmo de espetáculo, o que ele é, do começo ao fim. Alguns acham que o filme é sobre loucura, outros sobre o medo. Tô na segunda opção. É um filme de terror.

Chique, bem pago e produzido, classudo, mas é terror pra ser consumido pela massa e apreciado com carinho por quem entende do compasso. Não se prova o contrário. Tem sangue, deformidade e até morte de criança, coisa altamente apelativa desde que o mundo é mundo. 

DiCaprio é o herói e sua postura diante das ameaças enfrentadas é a mesma de Jeff Daniels em Aracnofobia, o cara com medo de aranha numa cidade cheia delas.

Pra iluminar e atentar, DiCaprio não fica louco. Ele já é, desde a guerra, desde a morte da esposa. O roteiro faz umas pegadinhas até o fim, pra coisa ficar melhor, mostra o descontrolado buscando controle no olho do furacão. Desejo de vingança se confunde com paranóia, traumas de guerra geram teorias de conspiração, o horror... oh, o horror! Seu personagem vai perdendo a cabeça aos poucos, talvez ele seja até o candidato da Manchúria. E se você não sabe quem é, vai ali no Google que ele já te explica.

Passado o problema, comentar a trama labiríntica e vivaz, é sacanagem. Scorsese fez um filme para impressionar, tão exagerado e charmoso quanto Cabo do Medo. Deixou a dúvida no ar priorizando o texto de Dennis Lehane, como um cagaço final, coisa do gênero terror, fartamente homenageado aqui junto com o noir. Kubrick, Val Lewton e nem mesmo Michael Powell escapou da honraria. 

O cenário é outra atração. Graças ao clima de pavor e a brilhante direção de arte de Dante Ferretti, ele parece abrigar uma ameaça ancestral além dos loucos encarcerados. A música escolhida a dedo, piora a situação. Uma peça de Penderecki (compositor que também estava na trilha sonora de O Exorcista) define toda a ação e marca o ritmo do nervosismo. Ouví-la sem o filme, é pior.  

O elenco vale a espiadela. DiCaprio ainda tem o que melhorar. Ele passa quase o filme todo com cara de constipado, mas volta e meia tem um arroubo de brilho. Mark Ruffalo é o mais acéfalo dos parceiros. As primeiras escolhas de Scorsese para os papéis eram melhores, Robert Downey Jr. e Josh Brolin. Bem melhores.

No jogo de cena, Ben Kingsley dá o tapa e esconde a mão. Max Von Sydow colabora na dobradinha ameaçadora. Os dois estão ótimos. É a dupla "Embrulha e Joga Fora" da vilania. Para os capangas, Scorsese escolheu John Carrol Lynch e Ted Levine, ícone do terror, o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes.

Emily Watson pode ser ou não a maluquinha desaparecida, Patricia Clarkson também. Jackie Earle Haley, feio como só ele poderia ser, é a voz da razão. Elias Koteas é o fantasma, assombrando DiCaprio junto com Michelle Wiliams. Robin Bartlett é a paciente nervosa que matou o marido a machadadas. Seu movimento em cena somado ao final do filme, faz parte da minha solução.

A sua, eu gostaria de saber. Você assiste e pensa o que bem quiser. Quem sabe até, a gente conversa sobre o filme, trocamos idéias e rimos após isso tudo.

Só não venha me dizer que você TEM certeza.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Matar ou não matar, eis a questão


TEATRO DA MORTE, também conhecido como AS SETE MÁSCARAS DA MORTE

Coloca aí num caldeirão: Shakespeare, sangue, humor negro, Inglaterra e gente feia. Aí chama o Vincent Price pra tocar a festa, reprisando o eterno papel do vingador amargurado que volta para destruir aqueles que lhe passaram a perna. Pronto. É o filme, é uma beleza.

Num arroubo de criatividade, ele agora é um ator shakespereano, o melhor de seu tempo (na sua própria concepção), reduzido a pó de traque por sete críticos teatrais. Crítico não é flor pra se cheirar e Price, faz a alegria dos artistas sacaneados, exterminando todos os seus detritores artísticos, com uma classe de dar inveja até em Jigsaw, o onipresente matador da série Jogos MortaisO charme incorrigível e a voz retumbante, fizeram de Price o vilão que todos adoravam odiar. 

A presença camaleônica permite que ele delicie-se em mil faces e declame Shakespeare alucinadamente entre boas doses de sangue e humor britânico, para fazer a tão sonhada justiça ao eliminar sete críticos impiedosos á risca dos textos do bardo imortal. Ricardo III, Julio César, Cymbeline, Troilus e Créssida, Romeu e Julieta, todos ali, bons motivos para cortar, decapitar, queimar e divertir o público que há de se interessar por algo no filme. O sangue, a palhaçada ou a cultura teatral, é só escolher.  

O elenco de vítimas é memorável, sortido de veteranos do cinema inglês, Jack Hawkins, Michael Hordern, Harry Andrews e Dennis Price. Ian Hendry é a besta que demora a acreditar que Price está botando um fim a bandalheira crítica.

Coral Browne, que casou-se com Vincent Price após as filmagens, protagoniza com o futuro companheiro uma seqüência hilária, onde ele depois de tanta traquinagem, também se passa por homossexual. 

Milo O'Shea é o detetive raivoso, Robert Morley é a bichinha afetada e Diana Rigg, belíssima, é a companheira de maldade.       

Por esse e tantos outros, Price eternizou-se como um dos cavalheiros do horror, um monstro (no sentido literal) tão sagrado quanto Lugosi, Karloff, Cushing e Lee.

E para você, que jamais assistiu um filme de Price, serve de consolo saber que é a voz dele no clipe de Thriller do Michael Jackson?

terça-feira, 20 de julho de 2010

A vida é um laboratório



A MOSCA

Atualização do clássico filme de 58. Sai Vincent Price, entra o nojo e a pústula.

David Cronenberg toca o espetáculo priorizando o suco gástrico. Ele é o mestre melancólico do horror, o barão do sangue e em toda a sua filmografia existem feridas, físicas ou psicológicas, prontas para estourarem na realidade trágica que acomete seus personagens. Cronenberg adora a carne, os machucados, a podridão e o bizarro. Construiu fama chocando a humanidade com seus closes escatológicos nas mazelas da humanidade.

É a realização do pesadelo de Kafka, a verdadeira metamorfose de homem em inseto, da pior maneira, de dentro pra fora lenta e dolorosamente. Ao desafiar a ciência, um pobre homem desce a ribanceira do desespero tomado por uma doença incurável, pior que a morte.

Jeff Golbdlum é o amalucado cientista Seth, que traz na cara a mesma preocupação de qualquer cientista louca de um filme clássico dos anos 50 ou 60: revolucionar a humanidade, impressionar o mundo e a ciência. Para isso, ele constrói a melhor máquina de todos os tempos, a cápsula de teletransporte e como um bom Dr. Frankenstein da nova era, fará de tudo para assegurar a eficiência de seu novo experimento, inclusive a burrice de testar a máquina por risco próprio.

Ele é um caso raro de boa atuação em filme de terror. Atuando com quilos de maquiagem, Jeff carrega o filme a partir do momento que o monstro interior começa a zumbir mais alto. Adquire habilidades especiais, come açúcar desesperadamente e discursa sobre a mudança da carne e o mergulho no lago de plasma. Pele ruim, manchas no corpo, unhas e dentes que caem atestam que algo está errado e já é tarde para reverter a cagada toda.

Caliphora Vomitoria é a mosquinha que condena a vida de Seth. É o erro de cálculo, o acaso obscuro que coloca o povo em risco. Sua presença insignificante altera o curso da história, seus genes fundem-se com o cientista, que acaba bem fundido.

A transformação do homem não em mosca, e sim em aleijão que abandona as camadas de pele para revelar uma confusão genética, ainda é um parágrafo impressionante na história do cinema. Chris Wallas libera sua criatividade em gosmas que explodem por todo o corpo de Seth. Com razão, papou o Oscar de melhor maquiagem.

Geena Davis é a apaixonadíssima Verônica, que disputa com Goldblum o título do pior penteado em cena. Sua passividade diante do apodrecimento do amado é incômoda, mas ela é apenas uma expectadora, voyeur do horror impossibilitada de resolver tamanho calvário. O melodrama romântico entre os dois quase empaca a história. Fora romance e tome-lhe chinelo na nojeira!

John Getz é o corno enfurecido, que tenta atravancar sem sucesso a relação amorosa e acaba literalmente derretido em sua própria ambição. David Cronenberg, perverso que só ele, aparece em cena como o obstetra, numa cena de grande pavor.

Trilha sonora de Howard Shore, outro que como Bernard Herrmann, sabe musicar o suspense.

Grande sucesso comercial na vida de todos os envolvidos, o filme catapultou Cronenberg ao estrelato hollywoodiano e juntou Jeff e Geena, que foram casados por três anos após as filmagens.

E até hoje, Goldblum é lembrado pela galera como "aquele cara da Mosca, sabe?"

Por mais cômica que pareça a idéia, o dinheiro da produção saiu do bolso de Mel Brooks.

domingo, 11 de julho de 2010

Aconteceu no Texas

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (O original de 74)

Terrorzão rastaquera, feito no quintal de casa, sem a intenção de virar a rola da maioria cult. Traz as mazelas do "dream is over" setentista, quando um passeio agradável vira o inferno na terra, um fim-de-semana com sogra, cachorro e filhos na praia.

Um delíro quente e abafado como o fim do mundo onde se passa a história. Tobe Hooper chamou  um pessoal, que nem Romero e A Noite dos Mortos Vivos, e aconteceu. Pela cara do elenco, todo mundo era chegado num cigarrinho com ciência. Marilyn Burns, bem antes de Jamie Lee Curtis, foi a rainha do grito. Ela alcança decibéis insuportáveis, fato.

É um clássico, não só do gênero terror, mas do cinema. Marcou a época dos filmes cara de pau, feitos no osso do peito. Foi proibido no Brasil e o auê acabou brochando alguns espectadores quando ocorreu a primeira exibição na terrinha.

Ed Gein foi o inspirador da zoeira toda. A introdução falsete de documentário mundo cão, é uma profecia no vozeirão de John Henry Faulk: "A história que verão a seguir... é sobre quatro azarados que dão carona para um doente mental e viram o jantar de uma famíla com hábitos nada saudáveis." 

Começa a perseguição, o choro, o corre-corre e o horror mais puro, em sua forma primária.   

A correção no título é fundamental. A serra funciona á motor. Ninguém vê Leatherface correndo com um fio de extensão nas costas para fazer o bicho roncar.

A perversão instalou-se na casa no fim do campo e de lá nunca saiu. Quatro homens representam o pavor muito bem em cena. Jim Siedow, um ator de formação shakespereana, é o patriarca que acua suas vítimas com uma calma de dar nojo.  Edwin Neal é o arrimo, o retardado da família. John Dugan é o mumificado vovô, sentado o dia todo tarando o esqueleto da vovó.

A honra maior é de Gunnar Hansen, o trator da família. Grande, desajeitado e redondamente débil, ele caça as iguarias para o jantar. O apetite canibalesco fala mais alto que o cérebro (aliás, cadê?) e ele executa suas vítimas de tudo que é jeito: marretadas, ganchos e claro, a serra. Importado da Islândia, hoje é ícone do gore, da nojeira.

Não é um filme para sentir medo. É para cagar nas calças de nervosismo, mais nada. Por mais que se corra, não tem para onde escapar. A serra continua roncando num labirinto seco e árido. Até o gordinho da cadeira de rodas pensa seriamente em levantar e sair correndo, quando encontra Leatherface com aquela carantonha costurada com pele humana. O desespero do elenco dá a impressão de que Tobe Hooper não avisou ninguém sobre o que iria acontecer. Parece Godard, com roteiro escrito a medida que o povo ia morrendo de susto. Alguém sabia que era um filme de terror, mas não esperavam um realismo tremendo.

Scorsese, De Niro e o Cabo

CABO DO MEDO

O inseto da megalomania picou Scorsese. Feliz da vida após o sucesso de Os Bons Companheiros, ele pensou "vou refilmar alguma coisa". Com um tesão desmedido, ele escolheu Círculo do Medo, dirigido por J. Lee Thompson em 1962 e foi com tudo.

Em cada fotograma inflado com um clima tétrico e o terror desmedido, podemos ouvir a voz de Martin Scorsese gritando que sim, ele pode fazer melhor. Ele sabe fazer melhor, e o filme deu certo, deixa assim.

Cabo Do Medo é tão magnético que aumenta os batimentos cardíacos. O material é de um exagero sufocante. Começando pelo contra-regra, passando pelo elenco e por culpa do diretor, todos entregam ao filme uma força brilhante, porém desnecessária se lembrarmos que ele é apenas uma refilmagem. É masturbação visual, ataque de egocentrismo que funciona mecanicamente quando tudo está alinhado. A fotografia de Freddie Francis, a montagem de Thelma Schoonmaker, a abertura de Elaine e Saul Bass (cujos nomes nunca mais se viram nos títulos de um filme, peninha) e a música de Bernard Hermman, atualizada com fúria por Elmer Bernstein, tudo para provar que Martin é o filho número 1 do cinema americano.

A trama é sobre a presença do mal na vida de uma família que não anda bem das pernas. Um estranho impiedoso chega para ruir a estrutura bamba da vida de um advogado vivido por Nick Nolte, um poço de pavor. Suando frio e comendo cigarros, com o passado mais confuso que banheiro de boate gay, Nick passa o filme todo quase entortando pregos com o ânus. Jessica Lange é a esposa, madura e sensual. Os dois protagonizam cenas dignas de tragédias gregas.

Robert De Niro, antigo parceiro de Scorsese, é o capeta. Ao sair da cadeia, o apocalipse vai começar. Vestido de Genival Lacerda, De Niro cita a Bíblia e as leis dos homens enquanto reclama por uma curra sofrida na cadeia. Seu personagem transita entre o terror e a chatice, por isso queremos que Nick Nolte quebre a cara dele, pelos dois motivos.

Illeana Douglas e Joe Don Baker são as infelizes vítimas de De Niro, o FDP indestrutível, de assustar Chuck Norris. O elenco do filme de 62 aparece em pontas. Robert Mitchum é o policial sonolento, Gregory Peck contribui com a festinha e Martin Balsam é apenas Martin Balsam.

O porão está cheio de cagaços e a viagem vale a pena, se contarmos o conflito final dos homens regredidos á barbárie, que por pouco não lava a alma de quem assiste. Resta saborear o medo, pois intencionalmente, o filme é de terror.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Michael Myers não é mais aquele... Olha o diretor dele!

HALLOWEEN
(do Rob Zombie)


Haloween é mais um representante da maldita safra moderna de filmes de terror, sacrilégios cinematográficos surgidos para desmistificar os assassinos seriais dos anos 70 e 80. Viram o que aconteceu com o Jason, né? Esperem pelo Freddy...
Dirigido por Rob Zombie, roqueiro que acredita ser cineasta, tem jeito de filme vagabundo, mas sabemos que ele é tão malandro quanto Tarantino e gasta muito dinheiro para realizar seus filmes com jeito de B. Não por acaso, os financiadores de Quentin são os Weinstein, os mesmos de Rob.

Zombie conduz um filme canhestro, comprometido muitas vezes pela baixaria excessiva e grotesca, que não funciona sem a comicidade cool de A Casa dos 1.000 Corpos ou Rejeitados Pelo Diabo, e acaba engulhando pela metade.

Ainda falta muita classe para Rob tornar-se um diretor sério e fazer algo como o Halloween original, que me desmancha de medo até hoje apenas pela tensão e não pelos excessos vistos neste novo filme.

Descontando o prólogo com as origens e motivos da psicopatia de Myers, o filme segue os mesmos passos do clássico de John Carpenter, atento aos detalhes mínimos como a exibição de The Thing nas televisões, algumas mudanças aqui e acolá, uma trilha maior de corpos e muita sacanagem em doses cavalares. De todas as vítimas mulheres, só Dee Wallace não paga peitinho em cena.

Daeg Ferch, o garoto que interpreta Michael Myers na infância, é chato demais para meter medo. O mal absoluto do filme de 78 vira um agressor mirim com direito a camiseta do Kiss e cabelinho comprido. O gigantesco Tyler Mane, o Myers adulto, merece respeito. Três vezes maior que Tony Moran em 1978, o rapaz é um gigante feroz e incansável, mais animalesco e digno de pavor.

Para consolo dos admiradores profundos de filmes de terror ou tranqueiras, o elenco coadjuvante consegue reunir rostos memoráveis do gênero, alguns até em personagens novos na trama. Estão em cena Richard Lynch, Sybill Danning, Danny Trejo, Ken Foree, Clint Howard, Udo Kier e Bill Moseley. Adrienne Barbeau deveria aparecer, mas acabou cortada na edição final.

Dee Wallace aparece como a dócil Sra. Strode, mãe de Laurie. Sid Haig, ator-fetiche de Zombie, é o coveiro. Danielle Harris, vista criança nos Halloween 4 e 5, dá as caras como Annie, a filha do Xerife Brackett, agora vivido por Brad Dourif.

Scout Taylor-Compton é a protagonista e quase consegue ser uma nova scream-queen como Jamie Lee Curtis no filme original, seus decibéis vocais no final do filme atingem um limite suportável.

Wyllian Forsythe é o padrasto porcalhão de Michael, fazendo par com Sheri Moon Zombie, a esposa do diretor que só entra em cena por causa do
Padrão de Filmagem a La Didi Mocó.

Malcolm McDowell é o guerreiro Dr. Loomis, responsável pelos momentos interessantes do filme toda vez que tenta entender a cabeça do infeliz. Mas ficou a saudade do amargor de Donald Pleasence, que acreditava a todo custo que Myers era incurável e merecia uma boa dose de chumbo no crânio.

O filme cria uma série de explicações porque a nova geração tem preguiça de pensar e utilizar a imaginação, por isso precisam de tudo mastigado nos mínimos detalhes.

Nada que mereça alarde e nem o intitule como obra-prima do terror, tal qual o original.

A nova visão de Zombie para o clássico dos anos 70 parece um pesadelo heavy-metal, repetitivo em vários momentos e desnecessário. As constantes aparições de Michael Myers esmigalham a aura sobrenatural do assassino, que raramente aparecia no filme original e quando o fazia, era sempre de relance.

Zombie tem um mérito apenas, o de fazer as coisas da maneira antiga. Acredite se quiser, Halloween não tem nenhum efeito de computação para os assassinatos.
Pena que o operador de câmera tenha mal de Parkinson, fazendo a imagem tremer toda vez que alguém é atacado.

O filme nasceu errado. Quando o roteiro começou a vazar na internet, Rob Zombie perdeu-se na própria megalomania e começou a refilmar cenas, alterar coisas, banir personagens e perdeu o fio da meada, gerando três versões do filme! O acontecimento desagradou até a distribuidora brasileira, que adiou ao máximo a chegada do filme aqui na terrinha.

E Zombie não para. Já rodou o Halloween II e está nas vias de produção do terceiro filme, garantindo que a burrice e a teimosia movem Hollywood.

Nos créditos finais, uma dedicatória a Moustapha Akkad, financiador-mor dos oitos filmes anteriores de Myers, morto num ataque terrorista em 2008.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Não há como escapar de Suspiria...

SUSPIRIA

Conto de fadas assombroso, o primeiro de outra trilogia criada por Dario Argento acerca das Três Mães, criaturas diabólicas que controlam os suspiros, as trevas e as lágrimas, espalhadas por três casas ao redor do mundo. A história das Mães é tirada do livro Suspiria De Profundis, de Thomas De Quincey, escritor inglês ligadão em ópio e criador de delíros incontáveis, dignos de Argento continuar em A Mansão do Inferno de 1980 e finalizar com O Retorno da Maldição em 2007, tendo sua filha Asia Argento como protagonista.

A revolução artística em Suspiria é tremenda. Contempla-lo é perder-se num pesadelo metafísico e desconcertante. Uma obra de arte em cor, vitalidade e fúria.


A violência é operística, resultando num conjunto irrepreensível de sangue, estilo e som. Lembra Kubrick, que dividia seus filmes na experiência sonora e visual.

As cenas de crime são grandiosas, estilizadas e barrocas, transitando entre o horror e o insuportável. Por ser um gênero que permite liberdade e loucura, o terror encontra em Suspiria, a materialização exata visual e pavorosa das chaves essenciais do gênero. Argento vira um amplificador de velhas fórmulas góticas, provando que nenhum filme é um texto que exija linearidade, transformando Suspiria num teste de resistência, uma afronta ao olhar e aos ouvidos que permanece na memória de quem assiste.

Jessica Harper é a infeliz protagonista Suzy Bannion, escolhida pelo diretor por lembrar facialmente a Branca De Neve da Disney. A doce mocinha glorificada com a chance de estudar na melhor academia de dança do mundo, desconfia que algo maligno ocorra por trás das paredes da escola. A câmera, a iluminação e os gemidos, indicam a presença de uma maldade antiga que a tudo e todos observa e tenta controlar. Quando este mal não obtém sucesso, não hesita em eliminar aqueles que cruzam o seu caminho.

E á medida que a história passa e a pressão aumenta, o espectador tão nervoso quanto a protagonista, percebe que o castelo exuberante em cores e formas geométricas, é também um covil de feiticeiros seguidores de Helena Markus, a fodona Matter Suspirarum. Para escapar dos rituais satânicos conduzidos na escola, Suzy se encaminhará para um apocalíptico final, defendido no trailer da época como a única coisa mais assustadora que os noventa minutos iniciais do filme.

O filme seria um giallo tradicional com crimes e sustos, mas com o decorrer da história nota-se que o assassino (ou seriam assassinos?), não é humano, complicando ainda mais a maluquice geral.

Como emissárias do inferno, Argento não poderia encontrar melhor dupla de vilãs defendidas por Alida Valli como a hausfrau nazista virada em sorrisos diabólicos e a veterana musa de Fritz Lang, Joan Bennett, como a elegante diretora da escola e chefona da organização satânica. Udo Kier é o especialista em bruxaria que ajuda a mocinha. Stefania Casini, Barbara Magnolfi, Eva Axén e Susanna Javicoli são as outras alunas que desfilam em figurinos cafonas setentistas. Flavio Bucci é o horrendo Daniel e um jovem Miguel Bosé aparece como a paixãozinha de Suzy.

A trilha sonora do grupo Goblin, construída basicamente de uma nota repetida em vários arranjos, cria tensão á partir da palavra witch, gemidos e sibilos. Argento tocava a música no mais alto dos volumes para colocar o elenco no clima de terror no set.


Quero ver se a coisa vai funcionar tão bem assim num prometido remake para 2010.

domingo, 26 de julho de 2009

Vampirismo De Luxo

FOME DE VIVER

Primeiro filme de Tony Scott como diretor, vindo do mercado publicitário e dos videoclipes. Scott começou sua carreira aqui, graças á Alan Parker, o diretor escolhido pelos produtores para tocar o barco. Parker indicou Scott aos produtores por não se achar capacitado para conduzir a história e disse que Tony tinha um estilo muito bom.

Como o Barry Lyndon ou O Iluminado de Kubrick e até mesmo o Nosferatu de Herzog, esse filme está dividido em duas experiências: ele é visual ou sonoro.
Se você tirar o som e ficar de olhos nas imagens, ou apenas ouvir os sons, sairá ganhando.

É um orgasmo de autor, pesadelo publicitário oitentista, datado, cheio de fumacinhas e música eletrônica. Scott tem uma preocupação tremenda com os cenários, as cortinas e a iluminação. Nada está fora do lugar e cada detalhe tem um efeito tremendo.

Catherine Deneuve vestindo Yves Sain-Laurent, é a belíssima vampira remanescente do Egito antigo. De tempos em tempos ela seleciona um parceiro para amar com a falsa promessa da vida eterna. O roqueiro David Bowie, tão afetado quanto o filme, é o lover do momento que percebe tarde demais o quanto Deneuve é mentirosa, pois ele está envelhecendo, virando uma múmia ambulante num excelente trabalho de maquiagem de Dick Smith, o criador da cara abominável da Regan em O Exorcista.

Ou seja, vida eterna e juventude, eram conversa pra boi dormir. Deneuve é uma predadora e está morta de medo de ficar sozinha com todos aqueles caixões dos antigos parceiros no andar superior de sua mansão. Seu instinto de caçadora e o coração necessitado fazem com que ela saia em busca de uma nova companhia para sorver jugulares nas noitadas ao som de Ballhaus.

Susan Sarandon no auge da sensualidade, é a cientista meio sapata que se encanta com Deneuve e as duas trocarão as melhores carícias lésbicas já vistas no cinema, ao som de Dellibes, perdidas entre esvoaçantes lençóis e cortinas brancas, lambuzadas de leve, com um sangue meio aguadinho que insiste em escorrer cama abaixo.

Fala-se pouco, ninguém morde o pescoço de ninguém. A turma em cena está mais preocupada em perder a carinha bonita. Um padece perante a velhice, outro sofre de solidão, mas tudo com um requinte e uma frescura inebriante. É gente bonita fazendo alarde por causa da beleza. São todos sofredores bem vestidos, transbordam uma elegância sem tamanho que nem dá espaço para o terror. Até os sustos são finos demais.

Tenicamente impecável, o filme começa a incomodar na metade. Scott e seus roteiristas, adaptando o romance de Whitley Strieber, não souberam o que fazer com os personagens perdidos em tanta sofisticação, e de um jeitinho sem graça, toda essa festa é apenas para dizer que a vida eterna é um saco.